Evento discute fim dos combustíveis fósseis sem “modelo ONU”
Cidade de Santa Marta recebe 56 nações dispostas a avançar na transição energética sem as travas das cúpulas climáticas tradicionais
Uma conferência inédita sobre o abandono do uso de combustíveis fósseis teve início na sexta-feira, 24, na cidade colombiana de Santa Marta, com a proposta de funcionar à margem do sistema de negociações da ONU.
O encontro, aberto pela ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez-Torres, reúne representantes de 56 países selecionados por demonstrarem disposição de agir sobre o tema — excluindo deliberadamente grandes emissores como Estados Unidos, China e Rússia.
Uma alternativa às COPs
A conferência nasce como resposta às limitações percebidas nas COPs. Segundo a ministra, o formato da ONU tem sido comprometido pela presença de representantes com interesse na manutenção da indústria de petróleo e gás: “Não queríamos entrar na mesma bicicleta ergométrica das COPs”, afirmou ela na abertura do evento, referindo-se à presença de “atores que vão justamente contra a discussão central, que é a superação dos combustíveis fósseis”.
Por não estar vinculada à estrutura da ONU, a reunião de Santa Marta não produzirá acordos com força jurídica obrigatória — diferentemente das COPs. A escolha por um grupo menor de países tem como objetivo destravar debates que, nas cúpulas tradicionais, emperram pela necessidade de consenso entre mais de uma centena de nações com interesses conflitantes.
O que a conferência deve produzir
As sessões de alto escalão ocorrem nos dias 28 e 29 de abril. Entre os países participantes estão o Brasil — que sediou a COP30 — e a Austrália, copresidente, ao lado da Turquia, da próxima edição da conferência climática da ONU. Também participam do encontro ONGs, representantes de povos originários e agências da ONU.
Três resultados estão previstos. O primeiro, apresentado já na sexta-feira, é um painel com pesquisadores de referência no campo climático, voltado à transição energética. O segundo é um relatório com contribuições de governos e da sociedade civil, traçando um roteiro para a saída dos combustíveis fósseis. O terceiro é uma declaração política que sirva de convocação para dar continuidade ao debate em fóruns futuros.
A ministra colombiana foi direta ao comentar o histórico de compromissos assumidos em COPs: “Já tivemos suficientes. E sabemos que em muitos casos são papéis, palavras ao vento”. Ainda assim, reconheceu o valor simbólico da declaração final: “O que resolvemos agora é a declaração das nossas vontades, que acredito ser mais importante, sobretudo em um contexto de tanta pressão geopolítica”.
Irene Vélez-Torres também situou o encontro em perspectiva histórica: “Estamos há mais de 30 anos em cúpulas de mudanças climáticas e não conseguimos resolver o problema”.
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