Em apenas 13 dias, arqueólogos localizaram 22 navios afundados há mais de 2.000 anos em uma região remota do mar Egeu, com cargas antigas ainda preservadas
Ânforas raras e mercadorias nunca vistas em escavações mudaram o que se sabia sobre Fourni e o comércio antigo.
Em 2015, uma equipe de arqueólogos mergulhou nas águas do arquipélago de Fourni, no leste do Mar Egeu, esperando encontrar talvez três ou quatro naufrágios antigos. O que aconteceu nos 13 dias seguintes redefiniu o que se sabia sobre o fundo do mar grego: 22 navios afundados, alguns há mais de 2.000 anos, foram localizados intactos — e nenhum deles havia sido documentado cientificamente até então.
Por que Fourni guardou tantos segredos por tanto tempo
Fourni é um arquipélago rochoso e pouco habitado, sem grandes cidades ou monumentos históricos. Durante séculos, sua história subaquática viveu quase exclusivamente através dos relatos de pescadores e mergulhadores de esponjas locais, que descreviam estranhos montes de cerâmica antiga cobertos de algas no fundo do mar. Foi esse conhecimento popular, passado de geração em geração, que finalmente motivou os arqueólogos a investigar.
O que tornava o local tão propício para naufrágios era sua posição geográfica: Fourni ficava em uma encruzilhada das principais rotas marítimas do Egeu, cruzando tanto no eixo leste-oeste quanto no norte-sul. Navios carregados de mercadorias passavam constantemente por ali durante milênios — e muitos deles nunca chegaram ao destino.

22 naufrágios em 13 dias e o que isso representa para a arqueologia
A expedição foi conduzida em parceria entre a Eforia de Antiguidades Subaquáticas da Grécia e a Fundação Náutica RPM, dos Estados Unidos, liderada pelos arqueólogos George Koutsouflakis e Peter Campbell. Os 22 naufrágios encontrados abrangem desde o período Arcaico (700–480 a.C.) até o século XVI d.C., e estavam em profundidades que variavam de 55 metros até apenas 3 metros abaixo da superfície.
Campbell, codiretor do projeto, não escondeu a surpresa da equipe: “Acho que todos ficamos chocados. Estávamos esperando três ou quatro destroços, e teríamos ficado muito felizes.” O impacto nos números é concreto: antes dessa expedição, cerca de 180 naufrágios antigos haviam sido oficialmente documentados em todas as águas gregas. As 22 novas descobertas representam um aumento de 12% nesse total — e a equipe havia explorado apenas 5% do litoral do arquipélago.

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O que as cargas revelam sobre rotas comerciais esquecidas
Embora os cascos de madeira dos navios tenham desaparecido há séculos, as cargas que transportavam permanecem intactas no fundo do mar. A maior parte dos destroços continha ânforas — grandes recipientes de cerâmica usados para transportar azeite, vinho e molho de peixe. Três dos 22 naufrágios, porém, se destacam por carregar mercadorias completamente inéditas na arqueologia do Mediterrâneo:
| Artefato e Origem | Datação/Período | Contexto e Observações |
|---|---|---|
| Ilha de Samos Cerâmica Grega | Período Arcaico | Provavelmente parte de uma rota comercial com destino a Chipre. |
| Mar Negro Ânforas Gigantes | Século II d.C. | Peças excepcionalmente grandes para os padrões da região. |
| Sinop (Turquia) “Cenouras de Sinop” | – | Ânforas com base em formato de cenoura. ★ Descoberta inédita: nunca antes registradas em naufrágios. |
Koutsouflakis resumiu bem o que torna esses achados tão relevantes: “O que é surpreendente não é apenas o número de naufrágios, mas também a diversidade das cargas, algumas das quais foram encontradas pela primeira vez.” Amostras dos artefatos já foram enviadas a um laboratório em Atenas para análises detalhadas.
Os naufrágios contam o que os livros de história não registraram
Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta é o contraste entre o silêncio das fontes históricas escritas e a intensidade do que o fundo do mar revelou. Os textos romanos da época praticamente não mencionam Fourni — o que tornava esperado que o arquipélago tivesse pouca relevância comercial naquele período. Os naufrágios provaram o contrário: aproximadamente metade das 22 embarcações data do final do período romano.
Como disse Koutsouflakis, “Fourni quase não é mencionada nas fontes da época. Os naufrágios, porém, contam uma história mais complexa. A ilha deve ter mantido sua importância como porto.” É uma lição que vai além da arqueologia: às vezes, o que o mar preserva diz mais sobre o passado do que tudo que foi escrito. E se apenas 5% do litoral de Fourni foi explorado, o que ainda está esperando no fundo dessas águas?
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