Elas existiram, treinaram e lutaram: a história real das mulheres samurais que a cultura popular esqueceu de contar
Descobertas arqueológicas, relatos históricos e batalhas documentadas ajudam a reconstruir o papel das guerreiras samurais no Japão feudal.
Os samurais são um dos maiores símbolos da cultura japonesa, associados quase sempre à figura masculina, às armaduras lacadas e ao código de honra dos guerreiros. Mas a história guarda um capítulo menos contado: mulheres também nasceram, viveram e, em alguns casos comprovados, lutaram como samurais. A questão não é se elas existiram, mas com que frequência empunharam armas de verdade.
Ser samurai era uma questão de classe, não de gênero
O primeiro ponto que especialistas ressaltam é que o termo “samurai” designava uma classe social inteira, também chamada de classe bushi, e não apenas um guerreiro em campo de batalha. Qualquer pessoa nascida nessa classe era tecnicamente um samurai, independentemente de treinar ou lutar. Conforme explicou Sean O’Reilly, professor de estudos japoneses na Universidade Internacional de Akita, “qualquer mulher nascida no grupo de status samurai era uma samurai feminina, mesmo que nunca tivesse empunhado uma arma, assim como qualquer homem nascido nesse grupo era um samurai, não importando o quão despreparado fosse”.
As mulheres que de fato entravam em combate recebiam um nome específico: onna-musha, que pode ser traduzido como “mulheres guerreiras”. O próprio O’Reilly faz uma ressalva importante: “as onna-musha provavelmente não eram tão frequentes ou tão importantes militarmente quanto a maioria das pessoas acredita hoje”.

As evidências mais sólidas vêm do século XIX
As provas mais concretas da participação feminina em batalhas datam do final do período samurai, durante a Guerra Boshin (1868-1869), conflito interno entre os defensores do Xogunato Tokugawa e as forças que queriam devolver poderes ao imperador. Foi nesse contexto que samurais mulheres alinhadas ao xogunato entraram em combate de forma documentada, segundo a pesquisadora Diana Wright, da Western Washington University.
Durante o cerco à cidade de Aizu-Wakamatsu, um grupo de mulheres formou uma unidade própria chamada Joshigun, liderada informalmente por Nakano Takeko, de 22 anos. Armadas para o confronto, elas enfrentaram forças equipadas com rifles na Batalha da Ponte de Yanagi. Os registros indicam que Nakano Takeko matou cinco ou seis homens com sua naginata antes de ser abatida em combate.
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Um monte funerário pode guardar os ossos de guerreiras reais
Uma das descobertas arqueológicas mais intrigantes sobre o tema está em Numazu, no centro do Japão. Um monte funerário local contém restos de aproximadamente 105 indivíduos, todos jovens adultos quando morreram, sendo cerca de um terço do sexo feminino. Os ossos datam do século XVI e foram associados à Batalha de Senbonhama, travada entre os clãs Takeda e Hojo. Para Thomas Conlan, professor de história medieval japonesa na Universidade de Princeton, “este monte é indicativo de que mulheres em idade de combate lutaram e morreram em batalhas do século XVI”.
Karl Friday, professor emérito da Universidade da Geórgia, recomenda cautela na interpretação: não é possível afirmar com certeza que todos os enterrados ali morreram em combate, pois alguns podem ter sido civis mortos durante o conflito. O debate entre especialistas reflete exatamente a tensão central do tema: há evidências, mas elas raramente são conclusivas.

As guerreiras lendárias e o que a história preservou delas
A figura mais famosa entre as samurais mulheres é Tomoe Gozen, que teria vivido no século XII e lutado na Guerra Genpei. A crônica “O Conto de Heike” a descreve como “guerreira páreo para mil homens comuns, habilidosa no arco, sempre pronta para enfrentar qualquer adversário”. Outra figura notável é Ōhōri Tsuruhime, que assumiu o comando da defesa de uma ilha aos 16 anos após a morte do pai e dos irmãos, sendo comparada à Joana d’Arc. Algumas peças de sua armadura sobreviveram e estão em exibição até hoje, feitas sob medida para a anatomia feminina, segundo o professor Conlan. Friday, no entanto, alerta que essas figuras são “semilendárias” e que a própria fama que acumularam é reveladora: “o fato de essas mulheres terem se tornado tão famosas é um bom indicativo de quão incomuns as guerreiras deviam ser”.
Ele também cita um manual militar da família Hōjō que listava proibições explícitas relacionadas à presença feminina nos preparativos para batalhas, entre elas:
- Compartilhar alojamento com mulheres nos três dias anteriores ao combate
- Permitir que mulheres grávidas ou que tivessem dado à luz tocassem as armas de um guerreiro
- Viajar no mesmo barco que passageiras a caminho da batalha
- Deixar que mulheres olhassem para as costas dos oficiais que partiam para campanhas
Um legado que ainda é praticado hoje
Mesmo com a abolição formal da classe samurai na década de 1870, parte do treinamento feminino sobreviveu. As mulheres da classe samurai eram obrigadas a aprender a manejar a naginata para defender suas famílias na ausência dos homens, e essa tradição não desapareceu. A Escola Yoshin, ramo das artes marciais tradicionais japonesas, ainda pratica o manejo da naginata com quimono, refletindo, segundo o tradutor Eric Shahan, o fato de que “as mulheres podem ter que pegar em armas repentinamente e, portanto, não têm tempo para trocar de roupa”.
A história das samurais mulheres é, ao mesmo tempo, documentada e disputada, real e mitificada. O que nenhum estudioso contesta é que elas existiram, treinaram e, em momentos decisivos, escolheram lutar. Se eram exceção ou regra, o debate continua aberto. Mas apagar essas mulheres da narrativa dos samurais seria cometer, mais uma vez, o mesmo erro que a história já cometeu por séculos.
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