Eduardo Bolsonaro, pré-candidato EAD, tem longa carreira a distância
Deputado federal licenciado nos EUA teve seu primeiro cargo em Brasília aos 18 anos, enquanto estudava no Rio
O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e reclama dos institutos que excluem seu nome das pesquisas eleitorais, tem experiência em ocupação de cargos a distância desde o fim de 2002, quando prestava vestibular no Rio de Janeiro, mas foi nomeado para um cargo comissionado no gabinete da liderança do então PPB (atual PP) na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Seu pai, Jair Bolsonaro, era filiado ao referido partido do Centrão e já havia emplacado outros dois familiares no mesmo posto: sua segunda esposa, Ana Cristina Siqueira Valle, e seu filho mais velho, Flávio, que também estudava no Rio.
A remuneração era de R$ 12,6 mil por mês, em valores atualizados em outubro de 2019, quando a informação veio à tona, na BCC.
Quando Jair Bolsonaro trocou o PPB pelo PTB de Roberto Jefferson três semanas depois, a nomeação foi anulada. Eduardo perdeu a boquinha de luxo desfrutada pela família; e dois meses depois, em fevereiro de 2003, teve de se contentar com outra, um pouco menos lucrativa: um cargo também comissionado na liderança do PTB, com remuneração de quase R$ 9.780.
A nomeação para o serviço de 40 horas semanais veio três dias depois da aprovação de Eduardo para o curso de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e quase um ano antes da criação, em janeiro de 2004, da primeira rede social a alcançar popularidade no Brasil: o Orkut.
O mercado de trabalho batia recorde de desemprego, a internet ainda engatinhava, mal se falava em home office e Ensino à Distância, mas Eduardo, aos 18 anos, já era um “assessor” EAD.
O cargo para o qual foi nomeado, segundo as normas então vigentes na Câmara, tem “por finalidade a prestação de serviços de assessoramento aos órgãos da Casa, em Brasília. Desse modo, (servidores) não possuem a prerrogativa de exercerem suas atividades em outra cidade além da capital federal”. Ou seja: o posto foi ocupado por 16 meses de forma irregular, a quase 1.100 quilômetros de distância, enquanto Eduardo cursava os primeiros semestres da faculdade no Rio.
Essas informações, somadas ao notório envolvimento de Roberto Jefferson no mensalão do PT, renderam a Eduardo a pecha de ter iniciado sua carreira como “funcionário fantasma de mensaleiro”, síntese explorada pelo deputado federal Kim Kataguiri (União-SP).
A partir do fim de 2018, quando a movimentação bancária atípica do operador Fabrício Queiroz apareceu em lista do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), apurações do Ministério Público do Rio e da imprensa apontaram uma série de outros casos de funcionários fantasmas em gabinetes de Flávio, Carlos e Jair Bolsonaro, além da compra de dezenas de imóveis com dinheiro vivo, dois deles adquiridos por Eduardo com uso de R$ 150 mil em espécie.
Ele foi blindado em 2021, sem investigação, por Augusto Aras, então procurador-geral da República nomeado pelo pai, assim como Flávio é blindado desde 2019 por aliados da família no Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli e Gilmar Mendes – aquele da frase “esqueça qualquer crítica ao Gilmar”, enviada por Jair a Eduardo em 27 de junho de 2025, como mostrou relatório da Polícia Federal em agosto.
Ao longo de quase uma década como deputado federal, Eduardo Bolsonaro teve somente três projetos transformados em norma jurídica (duas leis e uma resolução interna da Câmara), sendo dois em coautoria com outros parlamentares e nenhum deles relacionado a pautas tradicionais de direita, nem ao estado de São Paulo que o elegeu. O único de sua autoria exclusiva, aprovado, foi o que institui o Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal – AME.
Embora pose nas redes sociais de combatente do “sistema” e defensor da liberdade de expressão, Eduardo votou junto com o PT a favor do afrouxamento da lei de improbidade administrativa, do afrouxamento da Lei das Estatais, da resolução que manteve o orçamento secreto em versão maquiada; e nada fez para impedir, por exemplo, a aprovação da lei depois usada para condenar humorista.
Seu mandato ficou muito mais marcado pela atuação virtual e por viagens internacionais que por atividades e resultados legislativos coerentes com seu discurso. Desde o fim da licença de 122 dias, em 20 de julho, Eduardo ainda vem acumulando faltas não justificadas no plenário da Câmara, contabilizadas a partir de agosto, quando o Congresso voltou do recesso parlamentar. Jair Bolsonaro, como também mostrou a PF, tentou articular com aliados uma manobra para garantir o prolongamento do mandato do filho 03 com “home office” nos EUA, mas não funcionou.
Agora, mesmo indiciado pela PF por coação no curso do processo em que o pai é réu no STF por trama golpista, Eduardo segue explorando medidas impostas pelo governo de Donald Trump contra o Brasil e autoridades brasileiras como instrumentos de pressão e chantagem para alcançar uma anistia geral que inclua Jair Bolsonaro e ele próprio, a fim de possibilitar seu retorno ao país sem o risco de prisão.
Pelo WhatsApp, Eduardo manifestou ao pai seu incômodo com a potencial candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), afirmando, em 11 de julho, que ele “nunca te ajudou em nada no STF”, “sempre esteve de braço cruzado vendo vc se fuder [sic] e se aquecendo para 2026”.
Em 24 de junho, diante de levantamento do Instituto Paraná, Eduardo já havia tentado se valorizar, escrevendo a Jair Bolsonaro que “não perco para o Lula, dá empate técnico – há 1 ano da eleição!”, embora estivesse numericamente atrás, com 39,1%, contra 41,6% do petista.
Segundo a pesquisa Quaest de 21 de agosto, porém, Lula venceria Eduardo por 47% a 32%, uma distância de 15 pontos, quase o dobro da distância de 8 pontos entre o atual presidente e Tarcísio: 43% a 35%.
Mesmo assim, em 25 de agosto, Eduardo marcou o Instituto Paraná no X, considerando “estranho” o fato de que “antes”, as pesquisas “tinham meu nome, mas agora rodou sem, mesmo sem nenhum fato novo para isso”.
Não chegaria mesmo a ser “fato novo” um candidato à presidência concorrendo do exterior, já que Epitácio Pessoa foi eleito em 13 de abril de 1919 tendo passado todo o período eleitoral na França. A diferença é que Pessôa, que só voltaria em julho, já como presidente eleito, a bordo de um transatlântico, era o chefe da delegação brasileira enviada à Conferência de Paz de Paris, na qual os países vitoriosos na Primeira Guerra Mundial acertaram os termos com os derrotados; não um filho de ex-presidente réu articulando com governo estrangeiro a pressão pela anistia do pai.
Quase 23 anos após inovar em assessoramento EAD, Eduardo Bolsonaro inova, também, em pré-candidatura EAD, seja à presidência, seja ao Senado. Não se pode negar sua longa experiência de carreira a distância.
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Comentários (2)
Junior
28.08.2025 05:48A capivara família é bem grande...
Fabio B
27.08.2025 15:35Bem irônico, começou a carreira como funcionário fantasma e termina agora como candidato fantasma.