Edital de teatro em governo do PT gera críticas a quesito político
Produtores da Bahia se indignam com Funceb por avaliar “harmonia com a política estadual de cultura”
O quesito “harmonia com a política estadual de cultura”, usado para avaliações de propostas em edital da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) para circulação de produções teatrais, gerou manifestações críticas de produtores culturais e outros amantes das artes, nesta terça-feira, 14, nas redes sociais.
O nome do edital é Circula Cena. A Funceb é uma entidade vinculada à Secretaria de Cultura do governo baiano. O atual governador é Jerônimo Rodrigues, do PT, e o secretário da referida área é Bruno Monteiro, ex-assessor especial da Presidência da República, no governo de Dilma Rousseff. A Bahia é governada pelo petismo desde 2007.
“Não sabia que um dos quesitos de avaliação para as tais notas era ‘Harmonia com a política estadual de cultura’. O QUE É ISSO??? INDECENTE!!!”, comentou a produtora Maria Prado de Oliveira, declarando que “amo Lula”, mas “sem messianismos”.
Nas palavras dela, “estamos falando de dinheiro público e um quesito desses é impossível de avaliar pela sua inexorável subjetividade, sem falar no ‘dirigismo cultural’ em si”; “embora tenha pessoas queridas ligadas à gestão petista na Bahia, teço críticas a posturas e ações indefensáveis da atual gestão da Secretaria de Cultura do Estado”; “é inadmissível ver terminar este governo, em 2026, com esses equívocos renitentes e escandalosos”.
“Qualquer avaliação pessoal na distribuição do dinheiro público, seja por opiniões divergentes ou por ser amiga/amigo ou por simpatizar com essa ou aquela pessoa, é autoritarismo, base de fascismos”, acrescentou Maria.
Ela publicou um longo texto com base em uma postagem de Gil Vicente Tavares, diretor artístico do grupo Teatro NU e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também compartilhada por Marcelo Praddo, ator e diretor de teatro baiano.
Tavares divulgou imagem das notas atribuídas a duas peças – “Os pássaros de Copacabana”, escrita e dirigida por ele; e “Vou te contar!”, de Praddo – nos quesitos “A) Perfil do núcleo criativo responsável pela montagem do espetáculo”; “B) Histórico do espetáculo”; e “C) Harmonia com a política estadual de cultura”. Ambas receberam nota 7,7 neste último.
“Hoje era o último dia para entrar com recurso no edital de circulação da Funceb. Mas conversei com Marcelo Praddo e achamos que não valeria a pena. No máximo, poderiam subir alguns décimos que não colocariam a gente em lugar nenhum. Sequer na suplência. E desistimos também porque pedir algum crédito a um processo seletivo tão descredibilizado é algo inócuo.
O Teatro NU ganhou seu último edital em 2015. Por duas vezes, depois, acabamos, como últimos da fila, a ser contemplados como suplentes. Em dez anos, nunca vim a público chorar pitangas, mas, em diálogo com Marcelo vimos incongruências que são tão gritantes, que demonstram o absurdo das notas de maneira incontestável. E tem uma hora que cansa tanto disparate. Ao menos, expomos as estranhas entranhas do poder”, escreveu Tavares.
Embora ele tenha contestado outros pontos, o que mais chamou a atenção na postagem foi a existência do quesito C no edital Circula Cena.
“Quais os critérios, requisitos, parâmetros e métricas entram na avaliação de um quesito intitulado ‘harmonia com a política estadual de cultura’? A China de Mao Tse Tung não ousou tamanho dirigismo cultural. É vergonhoso, inadmissivel, deplorável. Uma lástima mas o que esperar de uma gestão que tem alguém tão inexpressivo como o atual secretário de cultura do Estado?!”, comentou Sergio Sobreira.
“Num governo que se diz de esquerda é surreal um critério como ‘harmonia com a política cultural do estado’. Aliás, cabe perguntar: qual é a política cultural do estado???”, questionou Marcia Moreira.
“Harmonia com a política estadual de cultura. Este item diz muito. Absurdo”, sintetizou Rafaela Princhak.
“E o item ‘harmonia com a política estadual de cultura’?? Como se tivesse alguma política cultural! Rsrsrs”, ironizou João Sanches.
O que diz o edital
Com investimento total de R$ 520 mil, o edital da Funceb havia aberto inscrições em agosto e setembro para apoiar 10 produções teatrais, em duas categorias de circulação nos “equipamentos culturais da rede SESC/BA”:
- Circulação Teatral 01 – 6 propostas, R$ 60 mil cada (equipes acima de 5 pessoas);
- Circulação Teatral 02 – 4 propostas, R$ 40 mil cada (equipes de até 5 pessoas).
O Antagonista verificou como o edital descreve os critérios utilizados no quesito C.
“Harmonia com a política estadual de cultura (0 a 10 pontos), priorizando-se:
i. Promoção da diversidade cultural
ii. Singularidade e inovação
Il. Possibilidade de intercâmbio e formação.”

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