“É nós, irmão”: pacto entre CV e PCC foi acertado por WhatsApp
Investigação detalha como líderes das duas maiores facções criminosas do país negociaram aliança (que já foi quebrada)
Uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrada nesta quarta-feira, 11, revelou que a aliança entre o Comando Vermelho e o PCC foi negociada por meio de mensagens trocadas no WhatsApp. Os diálogos obtidos pela Folha registram uma conversa entre representantes dos dois grupos no dia 25 de fevereiro de 2025.
Do lado carioca, as negociações foram conduzidas por Edgar Alves, conhecido como Doca, apontado pela polícia como o principal líder do Comando Vermelho nas ruas. O interlocutor do PCC aparece identificado apenas como “São Paulo” nas mensagens.
Um dia histórico para o crime
O contato entre os dois se iniciou com uma ligação de quatro minutos.
Em seguida, o representante paulista enviou uma mensagem a Doca: “Hoje é um dia histórico parça. Só nós sabemos o bem que estamos fazendo para gerações vindouras. Sem palavras. Orgulho de vc, conta com nós sempre”.
O líder do Comando Vermelho respondeu em áudio: “É nós, meu irmão, estamos juntos”.
Na mesma troca de mensagens, Doca encaminhou ao interlocutor do PCC uma versão atualizada do estatuto da facção carioca. O documento passou a incluir cláusulas de não agressão com o grupo paulista. Entre os princípios listados estão liberdade, respeito, justiça e união – além do respeito a organizações rivais com as quais o Comando Vermelho mantém relações.
O estatuto também detalha a estrutura hierárquica do conselho da facção, composto por 13 membros. A polícia aponta Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP, como presidente do órgão. Preso em presídio federal, ele tem a chefia negada pela defesa. Marcinho é pai do cantor Oruam, também associado ao grupo pelas autoridades, associação que o artista rejeita.
O documento traz ainda um código de conduta com condutas expressamente proibidas, como agressões entre membros, apropriação de territórios alheios e execuções sem aprovação do conselho. As penalidades vão de advertência verbal até a morte, conforme a gravidade da infração. Uma análise feita pela reportagem identificou que 93% do estatuto foi redigido com o auxílio de inteligência artificial.
Amigos, amigos; assassinatos à parte
O distanciamento entre as facções tinha origem no assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, em 2016, atribuído ao PCC. Um comunicado conjunto anunciou o fim do conflito com a frase “o crime fortalece o crime”, repassada a todos os estados, segundo a polícia. A Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) detectou o pacto à época.
A união, no entanto, durou pouco. No fim de abril de 2025, dois meses após o acerto, o PCC rompeu a aliança. Advogados ouvidos na ocasião indicaram que o grupo paulista rejeitou práticas violentas atribuídas ao Comando Vermelho.
Um dos episódios que motivou o rompimento foi o assassinato de um turista de Brasília. Antes de ser morto, ele teria sido obrigado a ingerir partes do próprio corpo por suspeita de portar imagens ligadas a uma facção adversária. Disputas por rotas de tráfico também contribuíram para o desgaste entre os grupos.
Apesar do rompimento formal, as duas organizações mantêm um acordo tácito de não agressão, com episódios pontuais de violência registrados desde então.
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