Dennys Xavier na Crusoé: Quando a pólis adoece
Estamos testemunhando uma degeneração da finalidade essencial da política enquanto expressão da vida em comunidade
A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, reacendida nos últimos meses por acusações cruzadas de intervenção institucional, ingerência ideológica e manipulação de narrativas as mais diversas, parece à primeira vista um impasse entre soberanias nacionais em conflito.
Mas, se levada ao tribunal da razão filosófica, o que se revela é algo mais profundo: não apenas uma dissonância entre Estados, mas uma degeneração da finalidade essencial da política enquanto expressão da vida em comunidade.
Segundo Aristóteles, a polis, isto é, a cidade-estado, é uma entidade natural, não uma criação humana estranha à sua mais íntima essência.
O homem é, por natureza, um zoon politikon, um animal político, o que significa que a vida humana atinge sua plenitude não na reclusão do indivíduo isolado, mas no convívio ordenado segundo a areté (a excelência) e a justiça. O próprio Aristóteles afirma no início da Política:
“O homem é por natureza um animal político” (Política, I, 1253a2).
E continua, de modo ainda mais incisivo:
“Quem é incapaz de viver em sociedade, ou não precisa dela por ser autossuficiente, ou é uma besta ou um deus.” (I, 1253a27–29)
A polis, portanto, existe “não só para viver, mas para viver bem” (zen kalôs).
A cidade justa é, assim, uma koinonia politiké, uma comunhão de cidadãos orientada para a realização da virtude.
Conseguiríamos, hoje, reconhecer algo parecido nas dinâmicas sociais a que estamos expostos?
Quando os regimes políticos abandonam esse norte ético, deixam de ser verdadeiramente políticos no sentido aristotélico.
O que resta é um mecanismo técnico de dominação, em que a finalidade comum cede lugar aos jogos de poder, às agendas facciosas e às estratégias de manipulação simbólica.
A crise entre Brasil e EUA é apenas um sintoma dessa doença política: uma disputa entre elites demagógicas e coletivistas (que pensam no Estado como uma extensão de suas famílias e interesses particulares) que, longe de refletir o bem comum, revela o esvaziamento moral das instituições e a perda do princípio da koinonia politiké, a comunidade política fundada na amizade e na justiça.
Aristóteles distingue…
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