Dennys Xavier na Crusoé: Orgulho de ser brasileiro?
Uma sociedade que aprende a chamar de orgulho aquilo que simplesmente herdou acaba enfraquecendo o próprio critério de avaliação da experiência humana
Existe uma diferença importante entre experimentar vínculo com um país e sentir orgulho dele.
Vínculo nasce espontaneamente, sem grandes mediações. Está ligado à língua que aprendemos antes de qualquer escolha consciente, às paisagens da infância, ao sotaque que carregamos mesmo depois de anos fora, às referências culturais que organizam silenciosamente a percepção do mundo.
Orgulho pertence a outra ordem. Ele depende de avaliação, de juízo crítico. Supõe um empenho sobre aquilo que foi feito, construído, sustentado ou conquistado.
No Brasil, essa distinção desapareceu.
A palavra orgulho costuma ser mobilizada para designar pertencimento puro e simples, não realização de qualquer tipo.
Fala-se com facilidade em orgulho de ser brasileiro por causa da alegria popular, da diversidade cultural, da música, da culinária, do clima, da miscigenação ou do simples fato de ter nascido aqui. Nenhum desses elementos resulta de decisão individual. Nenhum deles exige esforço moral ou intelectual específico.
São circunstâncias recebidas, não conquistas produzidas.
Isso modifica profundamente o sentido da palavra.
Orgulho, em sua forma mais exigente, está ligado à capacidade de olhar para aquilo que se construiu e reconhecer ali a expressão de um compromisso mantido ao longo do tempo.
Ele exige trabalho contínuo, responsabilidade pessoal, domínio técnico ou coerência de caráter. Nada tem a ver com entusiasmo coletivo nem exaltação simbólica. Trata-se de uma resposta interior diante de algo que foi realizado com intenção e perseverança.
Uma sociedade que aprende a chamar de orgulho aquilo que simplesmente herdou acaba enfraquecendo o próprio critério de avaliação da experiência humana. O indivíduo deixa de perguntar o que fez com a própria vida e passa a repetir fórmulas de pertencimento coletivo.
Identidade
A identidade ocupa o espaço que deveria ser ocupado pela biografia. O grupo passa a fornecer uma espécie de prestígio automático que dispensa esforço pessoal.
Esse deslocamento semântico produz efeitos visíveis no espaço público.
Celebramos com intensidade infantilóide a simpatia do povo, a criatividade improvisada, a capacidade de adaptação diante das dificuldades, a informalidade das relações sociais como “conquistas”, não um dado espontâneo da existência.
Ao mesmo tempo, permanece uma sensação difusa de frustração diante da precariedade institucional, da instabilidade política crônica, da fragilidade educacional e da dificuldade de sustentar projetos de longo prazo.
A palavra orgulho…
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