Dennys Xavier na Crusoé: Odisseu não experimenta culpa
O herói deseja regressar, e esse desejo não se enfraquece nem mesmo diante da promessa da imortalidade
Toda leitura de Homero exige um exercício de disposição intelectual que nem sempre estamos preparados para realizar.
O impulso espontâneo consiste em aproximar o poeta do nosso horizonte de expectativas, como se os grandes problemas que hoje ocupam a filosofia, a literatura e a psicologia também precisassem organizar a experiência humana descrita na Odisseia.
A guerra, por exemplo, passou a ser vista, sobretudo a partir da literatura moderna, como um acontecimento que deixa marcas profundas na interioridade do homem.
Espera-se que o sobrevivente carregue consigo uma memória atormentada, revisite continuamente os próprios atos e descubra, pouco a pouco, que o verdadeiro campo de batalha permanece dentro de si.
Essa maneira de abarcar a condição humana é tão familiar que, muitas vezes, deixamos de percebê-la como uma construção histórica e passamos a tratá-la como se fosse a única forma possível de interpretar o sofrimento, como uma invulgar “segunda natureza”.
Uma leitura atenta do poema homérico conduz o leitor por outro caminho.
Homero anuncia desde os primeiros versos aquilo que pretende cantar, e convém escutá-lo antes que nossas próprias categorias se imponham sobre o texto.
Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ
πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσεν·
πολλῶν δ’ ἀνθρώπων ἴδεν ἄστεα καὶ νόον ἔγνω,
πολλὰ δ’ ὅ γ’ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων.
“Canta-me, Musa, o homem de muitos recursos, que por muitas partes vagueou, depois que destruiu a sagrada cidadela de Troia; de muitos homens viu as cidades e conheceu seu modo de pensar; muitas dores sofreu sobre o mar em seu coração, procurando salvar a própria vida e o retorno de seus companheiros.”
É difícil encontrar uma abertura mais precisa. Homero apresenta o protagonista, recorda a queda de Troia, anuncia a longa…
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