Dennys Xavier na Crusoé: O teatro das cúpulas climáticas
O planeta não será salvo por resoluções. Será salvo, se o for, por indivíduos livres, dotados de responsabilidade real
Ato I — A inauguração solene
Abrem-se as cortinas da infâmia e dos ritos teatrais.
Em cena, um auditório reluzente, repleto de líderes mundiais, jornalistas, consultores, ONGs, investidores verdes, índios em vestes festivas aos borbotões e um número cada vez maior de adolescentes indignados, todos treinados em linguagem emocional e slogans pré-fabricados.
Estamos em mais uma edição da COP, aquela nobre cerimônia anual em que os poderosos do mundo se reúnem para anunciar que desta vez, sim, agora é sério: “O planeta não pode esperar”.
Cada edição tem seu figurino próprio: há ternos éticos, gravatas sustentáveis, painéis sobre ancestralidade, indígenas digitalmente convidados, e uma profusão de hashtags, bandeiras coloridas e palavras que tentam unir o mundo pela gramática da urgência moral: justiça climática, transição energética, fundo verde, colaboração intersetorial.
Até desfile de personagens patéticos travestidos de animais tivemos. Atores pagos com dinheiro de impostos sobem ao palco com semblante grave, embora as cifras de seus fundos de carbono sejam sorridentes.
A plateia aplaude. Os flashes brilham. E como no teatro ritual dos antigos, não importa se o texto é repetido todos os anos: ele ainda comove. Ou ao menos entretém.
Ato II — A tragédia do papel timbrado
Durante semanas, os delegados das nações negociam a redação de um documento final. As reuniões são intensas, exaustivas, emocionalmente performáticas.
Discute-se não o problema real, qual seja: a ausência de um sistema eficiente de incentivos, a má definição de propriedade e a manipulação estatal dos mercados energéticos; mas as palavras com que o problema será descrito.
É imprescindível, dizem os participantes, que o texto contenha termos como redução progressiva, compromissos escalonados, responsabilidades históricas e financiamento climático.
A palavra “eliminação” é considerada “colonialista”, enquanto “redução gradual” soa inclusiva.
A ideia de crescimento econômico é mantida, desde que precedida por verde, justo ou resiliente. O objetivo não é a clareza, mas a ambiguidade moralmente carregada.
Ao fim, produz-se uma declaração triunfal (nem sempre se chega a isso, é verdade… mas o triunfo está lá), cuja virtude principal é ser inofensiva, inócua, meio abobada.
Ninguém se compromete demais, ninguém perde prestígio, e todos podem voltar para casa dizendo que “fizeram sua parte”.
É a encenação da solução…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)