Dennys Xavier na Crusoé: O tal do artista engajado
O problema não reside no fato de o indivíduo tomar posição política (algo legítimo), mas em sua transformação em um tipo sagrado
Bem no espírito do nosso tempo, no qual a estética se curva à ideologia e o ofício criativo se transmuta em liturgia política chinfrim, o artista engajado emerge como figura tristemente paradigmática da cultura contemporânea.
Não mais o poeta trágico, nem o escultor do invisível, tampouco o cronista do humano, mas o pregador apedeuta.
Investido de uma missão que julga sagrada, ele transforma a arte em púlpito e o espectador em rebanho.
Seu valor não é medido por sua obra, mas por sua adesão à causa. É nesse teatro de intenções virtuosas que Thomas Sowell, um dos maiores pensadores do nosso tempo, identifica o tipo moral que subjaz a tal figura: o ungido.
Sowell nos oferece um retrato claro dessa mentalidade: “As pessoas com a visão dos ungidos veem a si mesmas como uma elite esclarecida, como pessoas dotadas de virtudes especiais, não meramente como pessoas com opiniões diferentes”.
Essa afirmação é essencial para compreender por que, no universo da cultura de massa e das artes institucionalizadas, a exigência de neutralidade, autocrítica e disciplina formal foi substituída por uma estética abobada da indignação.
O artista engajado não se submete ao juízo estético: se exime dele, alegando seu compromisso superior com a justiça social.
Para Sowell, essa lógica se funda num padrão psicológico bem definido: “A premissa básica da visão dos ungidos é que eles são melhores que os outros. Evidentemente, a crença de que você é melhor do que os outros é um grande incentivo para permanecer fiel a uma visão, mesmo diante de evidências esmagadoras contra ela”.
Daí o caráter blindado do artista engajado contra qualquer crítica que não seja um aplauso. Sua arte não está mais no domínio do julgamento estético, mas do alinhamento ideológico.
A obra não precisa emocionar, perturbar ou elevar, basta que denuncie. E denunciar, nesse modelo, é sempre um ato de coragem simbólica, mesmo quando absolutamente conformista nos meios de produção cultural.
Na verdade, os ungidos “estão menos preocupados com o que acontece com os outros do que com o que eles sentem sobre o que acontece com os outros. Ser visto como alguém preocupado é suficiente. Eles são julgados por suas palavras e intenções, não por suas ações ou resultados”.
Essa inversão moral é particularmente visível na arte contemporânea: o valor de uma obra não é sua transcendência estética ou sua forma inovadora, mas sua conformidade com as palavras de ordem do momento.
A performance substitui o símbolo, o discurso substitui o mito.
O artista engajado, nesse contexto, converte-se num avatar do que Sowell chama de “classe falante” (the talking class), cuja influência deriva não do que ela faz, mas do que ela diz e daquilo que representa.
“A classe falante…
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