Dennys Xavier na Crusoé: Liberdade também é o direito de escolher mal: as bets
Experiências patológicas de alguns não devem definir os limites para os demais
A discussão sobre as bets me parece contaminada por uma premissa que aceitamos com facilidade maior do que deveríamos: a ideia de que, quando algumas pessoas fazem mau uso de uma liberdade, o poder público deve se recobrir de uma espécie de autorização moral para restringir essa mesma liberdade para todos.
O argumento pela restrição busca amparo pontual em casos concretos e, por isso mesmo, emocionalmente fortes… mas a exceção é o argumento do apedeuta.
Certo, pessoas perdem dinheiro, contraem dívidas, desenvolvem comportamento compulsivo, comprometem relações familiares. Nada disso, é óbvio, deve ser tratado com indiferença, mas as experiências patológicas de alguns não devem definir os limites da liberdade dos demais.
Uma sociedade de indivíduos livres precisa conviver com uma verdade desconfortável: liberdade inclui a possibilidade de escolher mal. Não existe liberdade humana que venha acompanhada de garantia de prudência.
Em qualquer aspecto da vida social, o indivíduo pode gastar demais, investir mal, abandonar um emprego seguro, beber mais do que deveria, comprar alguma coisa inútil, administrar pessimamente seu patrimônio.
Podemos censurá-lo moralmente, aconselhá-lo, adverti-lo e, dependendo do caso, ajudá-lo. Algo bastante diferente se dá quando concluímos que sua possibilidade de errar transfere a terceiros o direito de escolher por ele.
É por isso que a discussão sobre apostas interessa mesmo a quem jamais colocou um centavo numa bet, como no meu caso.
Quando Friedrich Hayek examina a relação entre liberdade e responsabilidade em Os Fundamentos da Liberdade, uma das ideias centrais é justamente a impossibilidade de separar as duas coisas. O homem livre decide e responde pelas consequências de suas decisões.
A responsabilidade deixa de fazer sentido se a possibilidade da escolha é retirada dele, assim como uma “liberdade” inteiramente protegida contra o erro é mais tutela do que… oras, liberdade!
Esse ponto toca diretamente a questão das bets. Se um adulto adquiriu legitimamente seu dinheiro, sua condição de proprietário precisa significar alguma coisa além do direito de conservá-lo.
Propriedade envolve disposição. Ele pode poupar, investir, doar, viajar, comprar algo de que não necessita, pagar por entretenimento ou arriscar parte de seus recursos numa aposta.
Algumas dessas decisões podem parecer sensatas, outras podem ser tolas. O direito de propriedade ficaria bastante estranho, contudo, se significasse apenas o direito de utilizar aquilo que é meu conforme finalidades aprovadas por outra pessoa.
Rothbard leva essa questão a um terreno ainda mais fundamental em A Ética da Liberdade. Sua reflexão liga liberdade, propriedade privada e direitos individuais dentro de uma teoria na qual a pessoa não pode ser tratada como simples instrumento de fins coletivos.
De quem é o dinheiro?
Então façamos uma pergunta bastante simples: de quem é o dinheiro?
Se pertence ao indivíduo, devemos aceitar que ele faça com esse dinheiro coisas que nós mesmos não faríamos. Essa é uma das partes menos confortáveis da defesa da liberdade.
De fato, é fácil…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo indepenente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)