Dennys Xavier na Crusoé: Crônica para os que esperam salvadores
Seguimos elegendo falsos redentores
Toda eleição é, no fundo, um espelho coletivo. Os candidatos, com seus slogans vagos, seus apelos emocionais, suas promessas impagáveis, são menos culpados do que parecem.
Eles são, em grande parte, os personagens de uma peça escrita por um dramaturgo invisível: o espírito do tempo. E esse espírito, em geral, é tão preguiçoso quanto ressentido. Explico.
A democracia, sem indivíduos moralmente cultivados, degenera-se num teatro de autoengano. Com vozes sérias e punhos cerrados, seguimos nos perguntando “quem será o próximo a nos salvar?”.
Esperamos por um novo nome, uma nova cara, um novo herói… mas raramente paramos para nos perguntar: salvar-nos de quê, exatamente?
E por que ainda insistimos em terceirizar a salvação?
Talvez o erro esteja aí: não é o salvador que nos falta, mas o reconhecimento de que é inútil buscá-lo.
Como bem viu Henry David Thoreau em seu livro A Desobediência Civil, “o melhor governo é aquele que menos governa, e, quando os homens estiverem preparados, será o que não governará absolutamente”.
Mas estamos preparados? A evidência histórica e a boa compreensão sociológica gritam que não.
Seguimos esperando soluções vindas de cima, de alguém, de algum novo projeto de poder. Mas o verdadeiro projeto político digno de liberdade começa de baixo, na fundação interior de cada consciência.
Ora, nenhuma sociedade será livre se seus membros não forem capazes de suportar as consequências da liberdade.
O liberalismo, a verdadeira liberdade, não é uma fórmula mágica: é um fardo (para o qual qualquer alternativa é pior). Um fardo que poucos querem carregar.
É por isso que voltamos, a cada quatro anos (ou dois), a flertar com redentores, caudilhos, tecnocratas iluminados ou moralistas de palanque.
Mas não há solução política para uma alma desordenada. Um povo que não cultiva a verdade, que não valoriza o mérito, que despreza a responsabilidade e a propriedade, jamais será salvo por um presidente, por um ministro, por um plano de governo ou por intervenção divina.
O banheiro cívico, este somos nós que temos que lavar, com as nossas mãos.
A pedra angular de toda ordem política justa é o reconhecimento do indivíduo como fim em si mesmo, dotado de direitos naturais e inalienáveis, principalmente o de propriedade e o de autodeterminação.
Sem indivíduos que compreendam isso, a política é apenas um jogo de espelhos: e o mais bem-intencionado dos governantes será tragado por demandas incoerentes, impulsos de massa e paixões sem freio.
A pergunta essencial, portanto, não é “qual político será eleito?”, mas “quais virtudes/princípios o povo valoriza?”
Se a massa admira o cinismo…
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