Dennys Xavier na Crusoé: As cinzas da esperança domada
Há algo profundamente doente em uma época que prefere sentir-se bem a pensar claramente
Há anos que não terminam, apenas se arrastam para dentro do próximo.
O tempo, esse velho sofista, enganador dos muitos, nos ilude com calendários, promessas de renovação e fogos de artifício, como se a virada de página no relógio da História lavasse também a alma das coisas. Não lava.
O ano que passou, 2025, não quer ser enterrado sob os tapetes da esperança. Ele se recusa. Ele resiste. E como toda sombra que se preza, se alonga no tempo que virá.
Não cabe aqui nenhuma ode jubilosa, a meu ver. Se quisermos falar de forma honesta, talvez devamos começar como os gregos começavam seus lamentos: não com lágrimas, mas com cortante lucidez, aquela própria de homens sensatos e racionais.
Se houve progresso, mínimo, ele veio a galope dos poucos que ainda sabem distinguir excelência de mediocridade, liberdade de concessão estatal, música de ruído.
Mas por entre essas raras fagulhas, o que vimos foi um espetáculo de regressões travestidas de virtudes públicas. A inflação da linguagem moral alcançou patamares kafkianos.
Termos como “inclusão”, “cuidado”, “coletividade” foram erigidos como ídolos linguísticos, enquanto se enterravam conceitos mais fundamentais: mérito, responsabilidade, escolha, trabalho.
A toxicidade sentimental (esse romantismo degenerado em injustificável piedade pandêmica) encontrou renovada seiva nos palanques e nas redes sociais. O mimado existencial, para quem o mundo deve conforto em vez de desafios, tornou-se um tipo hegemônico: político, jornalista, artista, cidadão e juiz de tudo, armado de hashtags e ressentimentos.
Politicamente, seguimos assistindo a uma forma refinada de despotismo suave e cínico; aquele…
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