Dennys Xavier na Crusoé: A verdade retida
Quando o Estado teme (e esconde) os próprios danos
O ano de 2025 trouxe à tona um episódio revelador da relação ambígua entre o poder estatal e a verdade pública.
No epicentro da controvérsia, os dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que medem a alfabetização de crianças brasileiras no 2º ano do ensino fundamental; dados que foram temporariamente ocultados pelo governo federal.
A justificativa oficial: inconsistências metodológicas, seja lá o que tal coisa signifique.
A consequência prática: um súbito obscurecimento de indicadores cruciais para a compreensão do fracasso estrutural da educação pública no país – mais um motivo de vergonha para a nação que trata o seu processo educacional com um nível de descaso, diria eu, profissional.
Mas o que, de fato, se esconde sob a névoa daquele exótico silêncio? Seria preocupação germânica com a precisão estatística?
Ou teríamos aqui a concretização do que Hayek chamou de “pretensão do conhecimento” – a ilusão de que o Estado pode modelar a realidade como bem entender ao manipulá-la, sob a aparência de racionalidade científica?
“A liberdade intelectual é o motor do progresso; mas o monopólio da informação a serviço de um projeto estatal é seu algoz”, advertia Hayek em Os Fundamentos da Liberdade.
A alegada imprecisão da amostragem não impediu, curiosamente, que outros índices fossem utilizados em substituição – como o “Indicador Criança Alfabetizada”, criado sob as diretrizes do atual governo e que apresentou números mais favoráveis.
O contraste entre os 49,3% de alfabetização divulgados pelo SAEB e os 56% apresentados pelo novo indicador não é apenas técnico. É político. É epistêmico. É (anti) ético.
Em A Ética da Liberdade, Murray Rothbard concebe uma sociedade verdadeiramente justa como aquela fundamentada no axioma da não agressão e na plena autopropriedade do indivíduo.
A liberdade não é, para ele, um conceito vago ou sentimental – é um princípio ético fundado no direito natural, no qual cada pessoa é soberana sobre seu corpo, sua consciência e os frutos pacíficos de sua ação.
Aqui, o direito à informação emerge não como um capricho democrático, mas como decorrência direta da ética da liberdade.
Ora, se o Estado detém monopólio sobre dados que foram coletados com recursos de todos – e se esses dados dizem respeito a condições que afetam diretamente a formação moral e intelectual de crianças – então, reter tal informação equivale a uma violação de propriedade.
Sim: propriedade, pois a informação pública é um bem produzido com o trabalho e os tributos da sociedade civil.
Sob esse prisma, negar o acesso aos dados do Saeb é mais do que má gestão: é um confisco simbólico do direito do cidadão de saber em que tipo de civilização está vivendo.
A verdade, nesse contexto, não é neutra.
Ela é uma arma – e por isso, temida por regimes cuja estabilidade repousa sobre mitos pedagógicos, fanfarronices, shows retóricos patéticos e narrativas oficiais.
Rothbard compreendia que a educação pública compulsória era um dos mais potentes instrumentos de domesticação ideológica da modernidade.
Mas esse instrumento se torna ainda mais pernicioso quando controla também a medição do seu próprio fracasso.
Não se trata apenas de ensinar doutrinas estatistas, mas de esconder os resultados disso. Aqui, o controle da informação deixa de ser apenas técnico; ele se torna uma extensão do projeto de dominação.
A liberdade implica direito inalienável de acesso à verdade sobre aquilo que nos afeta diretamente – e poucos temas afetam mais a dignidade de um povo do que a formação de suas crianças.
Em vez de corrigir o problema, prefere-se esconder o termômetro.
É lógica de todo intervencionismo fracassado: quando…
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