Dennys Xavier na Crusoé: A comédia como termômetro da liberdade
Na Grécia Antiga, o palco era um espaço de “parresia”, a franqueza do dizer que, mesmo ferindo, iluminava
Na Atenas do século 5 a.C., um homem subia ao palco para zombar dos deuses, ridicularizar os políticos e satirizar os costumes mais enraizados da pólis.
Seu nome era Aristófanes. Suas peças – como As Nuvens, Lisístrata ou Os Cavaleiros – não poupavam ninguém: Sócrates era ridicularizado como sofista lunático, os generais como glutões corruptos, e as guerras, como insanidades movidas por desejo fálico.
O nome disso era comédia. E a existência desse gênero, com tal virulência crítica, só foi possível porque a democracia ateniense aceitava algo profundo: o poder libertador e transgressor da palavra.
Na comédia antiga, o palco era um espaço de “parresia”, a franqueza do dizer que, mesmo ferindo, iluminava.
O comediante era, paradoxalmente, um cínico e um pedagogo: ria do mundo para fazer pensar.
Não havia tema interditado. A piada era uma arma contra o poder, contra o moralismo, contra a hipocrisia.
E, se era possível rir até dos deuses, era porque o riso era visto como uma forma radical de liberdade.
Avancemos 2.500 mil anos. Em 2024, no Brasil, um comediante é condenado judicialmente por uma piada.
Não por agredir alguém fisicamente. Não por fraudar verbas públicas.
Mas por dizer, rir e fazer rir. O nome do réu é Léo Lins.
O motivo da pena: uma piada considerada ofensiva à dignidade de um grupo social. A pena imposta por um tribunal supostamente civilizado: mais de oito anos de prisão e multas milionárias. Seria de rir, não fosse trágico.
Onde foi que perdemos o fio da história?
A resposta pode estar no abandono do espírito da comédia antiga — e, com ele, da própria ideia de que a arte, mesmo ofensiva, é parte do oxigênio de uma sociedade livre.
Aristófanes sabia que a liberdade não se mede pelo que se pode dizer do amável e do belo, mas pelo que se tolera dizer do intolerável.
Quando o humor precisa submeter-se a códigos éticos oficiais, a filtros…
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