Crusoé: Lula pode mesmo peitar o dólar?
A tal moeda comum dos emergentes, como defende Lula, pode mesmo sair do papel? Por que Trump se incomoda tanto com a ideia?
Uma das causas listadas por analistas e críticos ao governo Lula para justificar o tarifaço de Donald Trump, além das questões políticas relacionadas ao clã Bolsonaro, seria a iniciativa dos Brics de estabelecer uma moeda alternativa ao dólar para o comércio internacional, ao menos entre os países do grupo. E dentre os países do grupo, o Brasil, na figura de Lula, seria especialmente vocal na defesa da ideia.
Mas essa ideia é mesmo viável? Os Estados Unidos tem razão em levar a sério essa ameaça e reagir – de forma acertada ou não, como no caso das tarifas de 50% ao Brasil? Lula cutucou o leão com a vara curta, ao falar abertamente sobre essa ideia, iniciativa que sequer seus pares mais poderosos China e Rússia falam de forma tão assumida.
A ideia de uma moeda dos BRICS
A proposta de uma moeda comum ou alternativa ao dólar entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, agora também com Irã, Emirados Árabes, Egito e Etiópia) não é nova. Em 2023, o ministro da Fazenda brasileiro, Fernando Haddad, chegou a propor um sistema de compensação entre os países do bloco usando moedas locais.
Lula foi ainda mais direto: “Eu não sou obrigado a comprar dólar para fazer relação comercial com a Venezuela, com a Bolívia, com o Chile, com a Suécia, com a União Europeia, com a China (…) Por que eu sou obrigado a ficar lastreado pelo dólar, que eu não controlo?”.
Segundo o economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel, há espaço no sistema internacional para outras moedas ganharem relevância, mas substituir o dólar exigiria décadas de complexas reformas institucionais e muita confiança internacional — algo que os BRICS ainda não oferecem.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) também aponta que, em 2024, cerca de 59% das reservas internacionais globais continuam em dólares, algo que não deve mudar no curto prazo.
A reação americana: exagero ou precaução?
A resposta americana às declarações de Lula, como os 50% de tarifas sobre produtos brasileiros, tem sido vista por alguns analistas como uma forma de “recalibrar” a posição do Brasil, sobretudo diante de sua aproximação com potências rivais dos EUA, como China, Rússia e mais recentemente, Irã…
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Comentários (2)
Fabio B
22.07.2025 10:45O grande sonho da China é substituir o dólar por uma moeda atrelada ao yuan. Só que eles são discretos, jogam no longo prazo. Já o Brasil faz o papel de bobo da corte: sai gritando bravata antidólar como se isso nos colocasse no centro do tabuleiro. E sem ganhar nada em troca. Não estou dizendo que devemos nos cadelar aos EUA. Muito pelo contrário, o Brasil tem que jogar por si, não por bloco nenhum. Ficar batendo no peito contra o dólar enquanto continuamos um país frágil, dependente de exportar soja e minério, é pura fanfarronice. Quer peitar hegemonia? Começa por dentro: reconstrói a indústria, garante soberania energética e tecnológica, e para de se humilhar por migalha geopolítica.
Luis Eduardo Rezende Caracik
22.07.2025 10:19O mundo inteiro está começando a perder a confiança no dólar, e não é por causa do Lula. É por causa dos Estados Unidos, e se não derem um jeito de controlar seu déficit fiscal, essa tendência vai, não só se manter, mas sim se acentuar. E como não há sinais de que os Estados Unidos estejam compreendendo o tamanho da enrascada em que se encontram, e ainda por cima aprovam um orçamento que vai aumentar ainda mais o déficit. Resta a eles a força militar, a violência e força contra os outros países, a censura à imprensa e outras coisas mais.