Como uma companhia brasileira fez de aterros, chorume e biogás um império avaliado em cerca de R$ 7 bilhões
A empresa mostra como aterros, chorume e resíduos urbanos podem virar energia, biometano, fertilizante, créditos de carbono e valor bilionário.
O Brasil ainda convive com mais de 3.000 lixões ativos e descarta mais de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano. Para a maioria das pessoas, lixo é sinônimo de problema. Para a Orizon Valorização de Resíduos, é sinônimo de negócio: a empresa fatura mais de R$ 1 bilhão por ano transformando aquilo que outros simplesmente enterram em energia, biogás, fertilizantes e créditos de carbono.
Como o lixo virou um dos negócios mais rentáveis do Brasil?
A lógica é simples: lixo é um insumo perene. Nunca deixará de existir e cresce com o aumento populacional e o consumo urbano. O que mudou foi a percepção de que resíduos, quando tratados com tecnologia e escala, se tornam matéria-prima para uma cadeia produtiva inteira.
Esse modelo já era realidade em capitais europeias há décadas. No Brasil, segundo executivos do próprio setor, o país estava cerca de 30 anos atrasado em relação ao exterior. Foi exatamente nessa lacuna que os fundadores da Orizon enxergaram a oportunidade antes de quase todo o mercado.

O que são os ecoparques e como eles funcionam na prática?
O coração do modelo é o ecoparque: uma área industrial de até 3 milhões de metros quadrados que combina o aterro sanitário com diversas plantas de transformação instaladas ao redor. O ecoparque de Paulínia, em São Paulo, recebe cerca de 700 caminhões de resíduos por dia só da região de Campinas. O que pode ser aproveitado é processado; o restante é aterrado de forma controlada.
A partir desse lixo, a Orizon gera uma cadeia diversificada de produtos e receitas:
- Energia elétrica produzida a partir do biogás gerado nos aterros.
- Biometano, gás natural renovável apontado como o principal vetor de crescimento futuro da empresa.
- Combustível Derivado de Resíduos (CDR), substituto de combustíveis fósseis em processos industriais.
- Fertilizante orgânico produzido a partir do tratamento de resíduos orgânicos.
- Água de reuso, obtida pelo tratamento do chorume gerado nos aterros.
- Créditos de carbono: em 2024, a empresa vendeu 1,1 milhão de créditos, com crescimento de 46% nessa linha.
Quais são os números que colocam a Orizon no mapa?
A empresa opera 18 ecoparques em 12 estados e gerencia mais de 10 milhões de toneladas de resíduos por ano, atendendo cerca de 40 milhões de brasileiros. Em 2021, abriu capital na B3, captando R$ 554 milhões com avaliação inicial de R$ 1,6 bilhão. Desde o IPO, as ações subiram mais de 145%.
Em 2024, a receita líquida atingiu R$ 903,4 milhões, crescimento de 16% sobre o ano anterior, com EBITDA de R$ 433,6 milhões e margem de 48%. O valor de mercado da companhia chegou a aproximadamente R$ 7 bilhões, construído sobre aterros que outros descartaram.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Próximo Negócio falando sobre a Orizon, empresa brasileira pouco conhecida que fatura bilhões.
Por que poucas empresas conseguem entrar nesse mercado?
Um aterro sanitário não é apenas um terreno. Ocupa áreas de até 3 milhões de metros quadrados, exige anos de licenciamento ambiental e tem vida útil de décadas. Quem controla os aterros controla o destino dos resíduos de regiões inteiras, numa condição próxima de monopólio local.
O marco regulatório também favorece o setor. A legislação prevê o encerramento de todos os lixões ainda ativos, o que, segundo dados da Abrelpe citados pela XP Investimentos, deve adicionar ao menos 29 milhões de toneladas anuais à demanda por destinação adequada. Para quem já tem capacidade instalada e licenciamento, é um mercado que cresce de forma compulsória.
O lixo como ativo estratégico chegou para ficar no Brasil?
A trajetória da Orizon mostra que o maior obstáculo para transformar resíduos em riqueza nunca foi a tecnologia: foi a visão. O modelo europeu demorou décadas para chegar ao Brasil, não por falta de demanda, mas por falta de quem enxergasse valor onde todo mundo via apenas sujeira.
O Brasil ainda está longe de resolver seu problema estrutural com o lixo. Mas quando um modelo industrial lucrativo e escalável entra em cena, com demanda garantida por lei, a transformação deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também econômica. E quando o dinheiro entra na equação, tudo muda mais rápido.
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