Comerciantes cobram fim de restrição histórica na Alemanha
Regra que fecha lojas aos domingos é um obstáculo à competitividade diante do comércio eletrônico, segundo varejistas
A partir de 1º de janeiro de 2027, padarias e confeitarias na Alemanha poderão abrir por até oito horas aos domingos, segundo esboço do Ministério do Trabalho aprovado pela coalizão entre conservadores e social-democratas no Bundestag.
A mudança, limitada a esse segmento, reacendeu a discussão sobre a Lei de Fechamento de Lojas (Ladenschlussgesetz), em vigor desde 1949, que mantém a maior parte do comércio fechada aos domingos e feriados em nome do “descanso e da elevação espiritual” previstos na Constituição alemã.
Regras variam entre cidades
Segundo a DW, o funcionamento dominical de padarias já é permitido em horários restritos e distintos conforme a localidade. Em Munique, o limite é de três horas; em Colônia, cinco horas. Berlim adota regra mais ampla, com até nove horas de funcionamento, desde que o expediente termine às 16h.
Setores como eletrônicos, vestuário, departamentos e shoppings permanecem fora das exceções, o que deixa os centros comerciais de diversas cidades alemãs esvaziados aos domingos. Restaurantes, tabacarias, cafés, lojas em pontos turísticos e em estações de trem e aeroportos seguem isentos da proibição.
Comércio cobra equiparação com a Europa
Para o presidente da Associação do Comércio Varejista da Alemanha (HDE), Alexander Von Preen, o país estaria atrasado em relação a outras nações europeias no tema. Ao jornal Welt, ele disse que “ir às compras é uma experiência, é parte do lazer das pessoas”.
Von Preen também associa a demanda por lojas abertas aos domingos ao comportamento de consumo digital. Segundo ele, “nas compras pela internet, a tarde de domingo é o horário de maior movimento. Isso mostra que as pessoas também gostariam de fazer compras em estabelecimentos físicos aos domingos”.
O presidente da Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK), Peter Adrian, classificou a legislação atual como uma “relíquia do passado” e defendeu, também ao Welt, maior autonomia para comerciantes e consumidores: “Devemos confiar mais na liberdade e na responsabilidade individual das pessoas e dos comerciantes”.
Vendas crescem, mas confiança do setor cai
Segundo a HDE, o varejo alemão registrou alta nominal de 1,9% no primeiro trimestre de 2026, patamar atribuído ao aumento de preços dos produtos e não a ganho real de demanda.
Uma pesquisa da Câmara Alemã de Comércio realizada em julho apontou que 42% dos lojistas avaliam o momento atual como ruim, ante 33% no mesmo período do ano anterior. Para 79% dos entrevistados, a principal dificuldade é a relutância dos consumidores em comprar.
A reportagem cita ainda o caso da Itália, que liberou totalmente os horários do comércio em 2011. Um estudo do Banco da Itália mostrou que, cinco anos depois, o número de empregos no setor cresceu 3% e o de lojas, 2%, com as maiores redes concentrando os benefícios.
Governo, igrejas e sindicatos resistem à mudança
Apesar da flexibilização anunciada para padarias, não há consenso na coalizão de governo para ampliar a liberação ao restante do varejo. O vice-líder dos conservadores em assuntos econômicos, Sepp Müller, disse ao Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) que o domingo “continua sendo um dia dedicado à família, ao descanso e à convivência”.
Pelo lado social-democrata, o porta-voz para assuntos políticos do SPD, Sebastian Roloff, também descartou mudanças mais amplas: “O valor agregado é limitado, mas as desvantagens são evidentes. Afinal, um dia de folga comum dá às pessoas tempo para descansar, para a família, os amigos e também para o trabalho voluntário”.
Um porta-voz da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD) afirmou ao Rheinische Post que “precisamos ter um dia na semana em que o maior número possível de pessoas tenha folga ao mesmo tempo”.
Já o Movimento Católico de Trabalhadores da Alemanha (KAB) descreveu o domingo sem compras como “uma pausa necessária para trabalhadores e consumidores, para o meio ambiente e o clima”.
Sindicatos também se opõem à proposta. Silke Zimmer, da Diretoria Nacional da ver.di, entidade que representa 2 milhões de trabalhadores do setor de serviços, afirmou que “o domingo é o único dia de folga que os trabalhadores podem planejar com segurança”.
A Confederação Alemã dos Sindicatos (DGB) alertou que jornadas excessivas já dificultam a contratação no varejo.
Segundo o Instituto Federal de Estatística, cerca de 8,5% dos profissionais na Alemanha trabalham aos domingos atualmente.
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