Clarita Maia na Crusoé: Coronelismo, bala e voto
Em determinados territórios, disputar eleições ou participar do debate democrático significa também administrar o risco de morrer
Victor Nunes Leal mostrou, em Coronelismo, Enxada e Voto, que a democracia brasileira nunca se estruturou apenas sobre instituições formais.
O voto era a tradução de relações privadas de poder, dependência econômica estrutural e controle territorial.
Mais de sete décadas depois, a enxada pode ter perdido o protagonismo em muitos rincões. Em muitas regiões do país, foi substituída pela bala.
Às vésperas das eleições de outubro, três estudos recentes sugerem que a violência política letal deixou de ser tratada como exceção para revelar-se um componente persistente da competição democrática brasileira.
O problema já não consiste apenas em fraudes, abuso do poder econômico ou desinformação. Em determinados territórios, disputar eleições ou participar do debate democrático significa também administrar o risco de morrer.
O relatório A New Era of Conflict and Violence, elaborado no âmbito da iniciativa UN75 das Nações Unidas, observa que o mundo não se tornou mais pacífico após 1945.
As guerras interestatais perderam espaço para formas difusas de violência protagonizadas por milícias, organizações criminosas e extremismos.
Mais da metade da população mundial conviveu, nos últimos quinze anos, com episódios relevantes de violência política, desmontando a ideia de que esse seria um problema restrito a Estados frágeis ou autoritários.
A literatura especializada tem revisto a antiga premissa de que a democracia produziria ou facilitaria o surgimento de sociedades menos violentas. Andrea Ruggeri, Ursula Daxecker e Neeraj Prasad demonstram que regimes democráticos têm convivido com intimidação eleitoral, terrorismo doméstico e violência contra adversários políticos.
Mais inquietante ainda é a constatação de que parcelas da população passam a tolerar a violência quando o oponente é apresentado como ameaça moral ou institucional.
A eliminação do adversário deixa de parecer crime para assumir aparência de necessidade política ou expurgo ético.
No Brasil, essa dinâmica ganha contornos próprios.
O estudo “Democracia Letal” produzido pelo Cebrap em parceria com a Global Initiative Against Transnational Organized Crime, identificou 1.228 episódios de violência política letal entre 2003 e 2023: 760 assassinatos consumados, 358 tentativas e 110 ameaças consideradas críveis.
São mais de cinco ocorrências por mês em uma democracia internacionalmente considerada consolidada.
Partindo do assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, não como exceção, mas como símbolo de um padrão, o estudo mapeou 1.228 episódios de violência política letal entre 2003 e 2023: 760 assassinatos consumados, 358 tentativas e 110 ameaças de morte consideradas críveis.
A conta é assustadora: 61,4 casos por ano, cerca de cinco por mês, em uma democracia que se apresenta ao mundo como consolidada.
Os dados…
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