Chão tremeu 24 horas antes de deslizamento matar dezenas em MG
Temporal em Juiz de Fora deixa 28 mortos e 44 desaparecidos; buscas continuam sob risco de novas chuvas
Um deslizamento de terra no Parque Burnier, bairro de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, destruiu cerca de 12 residências na noite de segunda-feira, 23, e deixou 20 pessoas desaparecidas apenas naquele trecho da cidade.
O balanço do Corpo de Bombeiros aponta 28 mortos – 21 em Juiz de Fora e sete em Ubá – e 44 desaparecidos, sendo 40 na capital regional e quatro no município vizinho.
Moradores afirmaram à Folha que, no domingo, 22, aproximadamente 24 horas antes do colapso, o solo da área já dava sinais de instabilidade. Relatos indicam que a vibração do terreno foi percebida por moradores de todo o bairro, após dias de chuva acumulada.
Sinais antes do colapso
Joice Silveira, 36 anos, descreveu o encadeamento dos eventos: “Todo mundo do bairro sentiu o chão tremer no domingo, que já vínhamos de dias de chuva. Daí por volta das 20h de segunda (23) ouvimos dois grandes estrondos. Quando saímos para a rua, vimos as casas caídas”.
Alexandre Rangel, dono de um imóvel de quatro andares na mesma rua, esteve no local durante a madrugada desta terça, 24, e descreveu o estado do terreno: “A casa está com água saindo do solo e o chão está movediço”. Segundo ele, havia um córrego passando pelo terreno próximo à via, e todas as moradias foram evacuadas antes do desabamento.
Os relatos convergem para um padrão técnico conhecido: solo saturado que perde progressivamente a coesão até atingir o ponto de ruptura. Segundo moradores, duas pedras se desprenderam e atingiram as casas, desencadeando o deslizamento em cadeia no bairro formado por ladeiras.
Buscas sob ameaça de nova chuva
Entre os 20 desaparecidos do Parque Burnier estão membros da família de Mariana de Oliveira Silva, 40 anos, incluindo uma criança e dois adolescentes: “Era um terreno com muitas casas. A casa de trás era uma quitinete que veio abaixo e levou todas as outras”, disse Mariana.
Retroescavadeiras trabalham na remoção de lama e galhos das ruas do bairro, enquanto equipes do Corpo de Bombeiros buscam vítimas soterradas. Às 14h27 desta terça, a Defesa Civil mineira enviou um alerta para celulares de toda a região, avisando sobre nova precipitação. A vibração dos aparelhos gerou pânico entre os presentes nas buscas. Uma chuva volumosa atingiu a área ainda durante a tarde.
Os rios que atravessam Juiz de Fora estão tomados por lama, e deslizamentos nas encostas são visíveis nas áreas mais altas da cidade.
Calamidade e resposta do governo
A prefeita Margarida Salomão (PT) decretou estado de calamidade pública ainda na madrugada de terça (24), medida reconhecida pelo governo federal. A Defesa Civil municipal registrou 251 chamados relacionados ao temporal. Desabrigados foram encaminhados a três escolas do município.
O ministro da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, informou que equipes da Defesa Civil nacional foram acionadas para atuar em conjunto com as autoridades locais.
A prefeita apontou que pelo menos 20 imóveis foram soterrados na cidade, principalmente na região sudeste. Miguel Felippe, professor do departamento de geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), contextualiza a vulnerabilidade do município: “Juiz de Fora é um município que tem um conjunto de morros que ultrapassam 100 metros de altura, do topo à base. Ao mesmo tempo tem uma rede de drenagem muito volumosa. Por isso há dois problemas simultâneos. O de movimento de massa, deslocamento de encostas, e o transbordamento de rios”.
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