Brasil terá laboratório de biossegurança máxima para combater pandemias
O complexo, previsto para 2027, será o primeiro na América Latina e o único no mundo a se integrar a um acelerador de partículas Sirius
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), localizado em Campinas (SP), deu início nesta quinta-feira, 21, às obras de fundação do Orion, um laboratório de biossegurança máxima (NB4). Espera-se que o projeto seja concluído até o final de 2027.
A instalação, projetada para se conectar ao acelerador de partículas Sirius, visa equipar o país com capacidade para monitorar e investigar agentes biológicos graves, desenvolvendo diagnósticos, vacinas e tratamentos eficazes contra futuras pandemias.
Otimização e singularidade do projeto
A fase de fundação envolve a instalação de cerca de mil estacas, com previsão de término até dezembro de 2025. O projeto, resultado de visitas a instalações de contenção biológica em outros países, foi aprimorado, elevando sua área de 20 mil para 29 mil metros quadrados. Consequentemente, o custo estimado aumentou de R$ 1 bilhão para R$ 1,5 bilhão. O diretor-geral do CNPEM, Antônio José Roque da Silva, explicou que esta revisão refletiu aprendizados e incorporou variações como câmbio e inflação.
Uma fundamental do Orion é sua integração com o Sirius, uma fonte de luz síncrotron. Pela primeira vez, uma estrutura de contenção biológica máxima estará acoplada a tal recurso. Maria Augusta Arruda, diretora do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), ressalta que essa união permitirá aos pesquisadores obter “imagens indisponíveis no mundo de hoje”. A capacidade de observar interações em tempo real em nível celular representa um avanço para a ciência.
A otimização incluiu também o redimensionamento do laboratório NB2, essencial para preparar materiais de estudo, que agora será significativamente maior, bem como o NB3. Este planejamento minucioso dos fluxos de trabalho é complexo, pois exige a preparação de amostras NB4 para as linhas de luz do Sirius.
O Sirius, um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, funciona como um potente “raio X”, analisando materiais em escalas atômicas e moleculares. Elétrons são acelerados e desviados por ímãs, gerando luz síncrotron para experimentos.
Impacto na saúde pública e preparação para crises
A finalidade do Orion vai além da pesquisa básica; ele representa uma ferramenta estratégica para a saúde pública nacional. A Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, classificou o início da fundação como “um marco histórico para a ciência do Brasil”. A posse de um NB4 capacitará o país a realizar investigações com patógenos de alta transmissibilidade e gravidade (classes 3 e 4).
Atualmente, não há laboratórios de máxima contenção na América Latina. Amostras do vírus Sabiá (SABV), causador da febre hemorrágica brasileira e o único vírus de categoria 4 identificado no Brasil, precisam ser armazenadas fora do país, limitando a pesquisa aprofundada em território nacional. O Orion permitirá manipular vírus como Junín, Guanarito e Machupo, responsáveis por febres hemorrágicas na América Latina, e outros patógenos de alto risco, como o Ebola.
O complexo permitirá uma resposta mais ágil na identificação de patógenos e no desenvolvimento de soluções, incluindo medicamentos e vacinas. Maria Augusta Arruda enfatiza a necessidade de preparação: “Não é uma questão ‘se vai acontecer uma próxima pandemia’, mas quando vai acontecer a infecção por um patógeno que pode levar a uma pandemia”.
A estrutura, portanto, é fundamental para o controle e suporte ao sistema de saúde. A capacitação de cientistas brasileiros para manusear esses agentes infecciosos está incluída no orçamento. Após a conclusão da construção civil em 2027, o Orion passará por comissionamento técnico-científico e certificações internacionais para iniciar suas operações regulares. A integração do laboratório com o Sirius apresenta um desafio gerencial e técnico, dado que o acelerador de partículas exige grande estabilidade do terreno.
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