Alexandre Soares Silva na Crusoé: Pessoas falam entre si
Quem deveria ser censurado é o governo. Essa é uma inversão que me daria um prazer imenso
Toda defesa da censura, ou do controle das mídias sociais, ou como você preferir chamar, é um medo de que as pessoas falem umas com as outras.
É isso, dito em português claro. Medo de que as pessoas falem entre si.
Mas o governo não tem isso vívido na cabeça, nem os jornalistas que vejo na tevê, porque eles vivem numa neblina mental perpétua.
Sim, sei que eles têm os interesses deles, mas mesmo assim eles não veem o próprio medo com muita clareza. Mas é isso mesmo, um medo de que as pessoas falem entre si.
Dito assim, é ridículo, é absurdo, etc. Não dito assim, e não é dito assim, pode passar pelo medo de algum perigo impreciso e sinistro que está bem-justificado em alguma coluna de jornal que você teve preguiça de ler, num discurso de algum político alemão não eleito de aparência severa, ou até num livro de um picareta especialista em extrema-direita.
Dois sujeitos estão conversando num banco de praça. Toda defesa nervosa e paniquenta da censura que vejo os comentaristas da tevê fazendo é uma mão suada de jornalista vindo por trás e cobrindo de repente a boca de uma dessas pessoas.
Meu Deus, o que vai acontecer se as pessoas conversarem entre si?
A comunicação humana é um negócio medonho.
Ela tem que acontecer bem reduzidamente, em situações controladas, de preferência por pessoas com poder, ou pelo menos com diploma de jornalista.
Quem não deveria ter liberdade de expressão é o governo. Quem deveria ser censurado é o governo. Essa é uma inversão que me daria um prazer imenso.
Mas todo dia vejo os jornalistas na tevê num estado contínuo de pânico com a pequena liberdade de expressão que temos.
Todo dia esse ataque de nervos vergonhoso por causa de uns negócios triviais como memes, piadas, a opinião de uns sites, as frases de uns sujeitos.
Há também alguns argumentos ilógicos sendo feitos todos os dias na tevê, como reparou um conhecido meu: eles falam com frequência que a falta de controle sobre as redes sociais é um plano para controlar as próximas eleições.
As pessoas, se forem deixadas livres, serão controladas, e se forem controladas, serão livres.
Mas, lamentavelmente para o governo, as pessoas vão continuar a se comunicar entre si.
Tudo que a esquerda antiga considerava problemas sociais eram de fato problemas sociais, e tudo que a esquerda atual considera problemas sociais não são de fato problemas sociais: são muitas vezes trivialidades sociais, irrelevâncias malucas, obsessões um pouco ridículas.
Mesmo que em algum país hipotético o Estado seja pequeno e funcione direito, ele precisa ser regularmente espancado e humilhado para não se dar ares. Essa é a obrigação moral de todo jornalista, e na verdade de todo mundo que abrir a boca para falar do próprio governo.
“… mas também elogio quando houver algo pra ser elogiado”, diz o nominal jornalista.
Você está maluco? Você acha que a sua função de jornalista é elogiar quando houver algo para ser elogiado?
É para isso que eu estou pagando, para que você passe seu tempo encontrando coisas no governo para serem elogiadas?
Você acha que Carl Bernstein e Bob Woodward vasculhavam o lixo da Casa Branca procurando coisas para serem elogiadas?
A internet me ensinou que há um tipo de pessoa que entra num velório pra dizer que todo mundo que está lá chorando a morte daquele morto devia, na verdade, estar chorando a morte de um outro morto mais da preferência política dessa pessoa, membro de uma classe social pela qual essa pessoa tem mais simpatia fingida.
Esse tipo de pessoa vai de capela em capela carregando fotinhas de pobres que morreram naquela semana.
“Por que não choram as mortes que acontecem nesta região aqui que poderia ser chamada de periferia? Preferia que estivessem chorando essas mortes aqui.”
Ela sobe num banquinho…
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