Valdemar, cadê a autocrítica?
A tentativa de golpe está para a direita radical como o petrolão para o PT: um pecado não reconhecido
O PT jamais fez uma autocrítica.
Pois bem: a tentativa de golpe de Estado do governo Jair Bolsonaro está para a direita radical assim como o petrolão e o mensalão estão para o petismo.
São ataques contra a democracia pelos quais não se assume responsabilidade nem se pede desculpa.
Contra todas as evidências, insiste-se na tese de que os perpetradores são vítimas injustiçadas. Poderosos coitadinhos.
“Não tenha dúvidas”
Veja-se o caso de Valdemar Costa Neto, o agora poderosíssimo chefão do PL.
Ele ficou nervosinho nesta quarta, ao ser pressionado por um repórter gaúcho sobre as tentações golpistas do bolsonarismo.
Primeiro, reconheceu que houve articulação para uma quebra institucional em 2022. “Não tenha dúvidas”, disse.
Segundo a sua lógica, contudo, não faz mal nenhum cogitar dessas coisas: “A lei diz que você pode planejar um assassinato, mas se você não assassinou o camarada, e não tentou, não é crime. Tudo bem, discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe, e daí?”
Valdemar sustentou que é preciso anistiar os militares que se envolveram na conspiração, pois eles “estão presos injustamente”.
Irritação
A irritação veio quando lhe perguntaram se tramoia semelhante poderia ocorrer num futuro governo de Flávio Bolsonaro.
“Sei lá! Sei lá! Pode haver planejamento?”, disse ele.
O rumo do raciocínio foi corrigido: “Não existe isso. Deu certo? Olha o Bolsonaro o que está pagando. Você acha que alguém quer fazer isso? Nunca, jamais.”
O desrespeito aos fatos e à lógica são flagrantes na fala de Valdemar.
Tentativa de golpe
Golpe de Estado não é como assassinato. Nesse último, o corpo estendido no chão é prova do crime. No golpe, o cadáver do antigo regime é sinal de vitória – e não sobra ninguém para falar em punição depois disso.
Por isso o crime de golpe de Estado só existe na forma tentada. Os preparativos são a execução, principalmente quando envolvem perguntar aos chefes das Forças Armadas se eles topam pôr as tropas nas ruas, como fez Jair Bolsonaro.
O bolsonarista empedernido diz que não existe golpe sem uso de armas e que a turba que depredou a Praça dos Três Poderes jamais disparou um tiro. Mas a “festa da Selma” não era o golpe propriamente dito: era a tentativa derradeira de tirar os militares da caserna, depois de anos de radicalização e meses de acampamento em frente aos quartéis.
Tudo isso é realidade. Como diria Valdemar Costa Neto, “não tenha dúvidas”.
O poder das desculpas
Também é fato, no entanto, que uma parte considerável do eleitorado – que deve constituir a maioria dos votos válidos nas eleições deste ano – não dá prioridade a esse assunto.
Depois de um governo Lula muito ruim, está mais preocupado com suas dívidas, com a inflação da comida e com o futuro. Compreensível. Vamos nessa.
Mesmo assim, seria útil ao país se as principais forças partidárias brasileiras reconhecessem que atos de honestidade e reparação podem depurar os ares e devolver a sanidade à política.
Em 2018, o PT cogitou reconhecer alguns de seus erros em um congresso nacional. A ideia foi barrada pela cúpula partidária.
Gleisi Hoffman explicou: “Não somos organização religiosa, não fazemos profissão de culpa, tampouco nos açoitamos. Não vamos ficar enumerando os erros que achamos para que a burguesia e a direita explorem nossa imagem. Nós não faremos autocrítica para a mídia e não faremos autocrítica para a direita do país.”
Duas coisas chamam atenção nessa fala: a ideia de que assumir culpas é coisa de religioso e a arrogância de quem acha que não há ninguém no mundo que mereça um pedido de desculpas do PT – afinal, o partido não encarna o suprassumo da virtude?
Credibilidade
À beira de uma vitória maiúscula, a direita deveria refletir sobre esse exemplo.
A direita que se diz temente a Deus provavelmente sabe da importância da reparação dos pecados no cristianismo.
Mas mesmo aqueles que só têm ambições e não crenças, como talvez seja o caso do presidente do PL, devem entender que autocríticas feitas em público desempenham um papel também no mundo secular.
No caso do bolsonarismo, trata-se de reconhecer com todas as letras que houve, sim, tentativa de matar a democracia. Seria um passo importantíssimo no sentido de tornar crível a promessa de que o crime não vai se repetir.
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