Uma guerra cultural ridícula
Única explicação plausível para medida que tentou mudar a faixa etária de uma série de desenhos bíblicos é o espírito de porco
A mudança na classificação indicativa de desenhos animados com histórias bíblicas foi revogada nesta quarta-feira pelo Ministério da Justiça, devido à reação furiosa de líderes religiosos e políticos de direita.
Mas a história ainda não acabou.
Agora, a oposição quer aprovar um projeto de lei que obriga o governo a levar em conta os contextos histórico, religioso, educativo, cultural, artístico e científico das obras submetidas à classificação.
É o tipo de medida que não resolve nada.
A diretriz é tão vaga que qualquer tipo de decisão poderá ser justificada na base do lero-lero.
Além disso, não se legisla o bom senso.
Sensatez
É fato que os desenhos religiosos apresentam “atos criminosos”, “violência” e “situações de preconceito”. A Bíblia tem tudo isso, assim como passagens em que se bebe vinho, uma “droga lícita”. Esses foram os critérios da legislação usados para reclassificar as animações.
Mas a série é exibida há mais de vinte anos nas manhãs da Record e ninguém jamais pensou em levar a ferro e fogo as determinações da lei, dado o valor não apenas religioso, mas também cultural da Bíblia.
Puro bom senso.
A sensatez, no entanto, é a primeira vítima das guerras culturais, que são o contexto em que esse episódio tolo acontece.
Espírito de porco
Quem assinou o parecer que transformou as histórias de Jesus e Moisés em conteúdo impróprio para menores de 12 anos com certeza sabia que, do ponto de vista prático, a medida era inócua.
Ela não obrigaria a emissora a transferir o programa para depois das 20h, pois o STF declarou inconstitucional, em 2016, a punição prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente para emissoras que desrespeitam as recomendações de horário.
Sendo assim, a única explicação plausível para a reclassificação é o espírito de porco, ou seja, a intenção de provocar. Coisa que obviamente não cabe no serviço público.
Uma praga sobre as duas casas
O bolsonarismo e a direita inspiram esse tipo de ação num governo petista porque também pretendem impor regras à cultura.
Em 2020, o governo de Rondônia tentou recolher 43 obras consideradas “inadequadas” para leitura na escola, incluindo clássicos de Machado de Assis e Mário de Andrade.
Em 2024, políticos bolsonaristas investiram contra O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, por causa de sua linguagem e de passagens sexuais.
A ideia de que a violência de Heródoto ou da Crucificação vão traumatizar para sempre crianças que assistem a um desenho é ridícula.
Acreditar que as passagens picantes de um livro lido na escola vão transformar adolescentes em pervertidos sexuais também é.
Mas os guerreiros culturais da esquerda e da direita continuam lutando, impávidos.
Uma praga sobre as duas casas.
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