Trump cumpre o que promete
Não há surpresas nas medidas e nos desvarios do presidente americano; surpresa é haver quem tenha se surpreendido
Trump está de parabéns. Poucas vezes um presidente eleito cumpriu com tanto zelo suas promessas de campanha. A continuar assim, terá um terceiro mandato. Com saúde, um quarto. Quem sabe um quinto, até um sexto, se a “maioria silenciosa” quiser. O céu é o limite e a Constituição é papel pintado.
Não bastassem o tarifaço, os elogios a Putin, as reprimendas em Zelensky, as bravatas contra China, as gracinhas com o Canadá, as ironias sobre Gaza, ele prometeu perseguir e deportar imigrantes e tem cumprido. Direitos humanos? No país dos outros. Cidadania? Só se for a de sangue.
Ameaçou que abriria guerra contra as universidades e alunos estrangeiros, e abriu mesmo. Ameaçou encurralar a imprensa e revogar a licença de emissoras, e é o que tem feito, tentado ou desejado.
Mandou embora estatísticos que lhe apresentam estatísticas desagradáveis. Quis demitir o presidente do Fed e demitiu uma de suas diretoras; como ela se recusa a sair, quer prendê-la.
Em resposta ao envio de tropas federais a Chicago, gastou o vocabulário autocrático: “Eu tenho o direito de fazer tudo o que eu quiser. Eu sou o presidente dos Estados Unidos”. Alguém ainda duvida de suas nobilíssimas intenções? Eu não duvido. Eu acredito em Trump.
Mas nada me parece tão simbólico quanto um decreto assinado na última segunda-feira, 25, que criminaliza com até um ano de prisão quem porventura queimar a bandeira americana.
A medida na prática revoga uma decisão histórica (e filosoficamente relevante) da Suprema Corte, no caso Texas v. Johnson, que havia decidido que a queima da bandeira é uma forma de manifestação legítima e protegida pela Primeira Emenda.
Na ocasião, o manifestante Gregory Johnson queimou a bandeira dos EUA do lado de fora da Convenção Nacional Republicana de 1984, em Dallas, em protesto contra as políticas de Reagan. O incidente foi a julgamento e deu vitória a Johnson – ou à liberdade de expressão radical. Para Trump, no entanto, expressão radical é só a dele.
Enquanto isso, liberais, libertários e conservadores de banhinho tomado largam o aristocrático Scruton e recorrem ao comunista Houaiss para consultar todas as adversativas ideológicas cabíveis – “Trump não deveria ter feito isso, mas… porém… contudo… todavia… entretanto…”.
Trump é, sempre foi, um cucaracha da América do Norte, um populista de mercado, um Chávez who speaks English. E nós, quem somos? Plateia, cúmplices, claque? O que tem faltado a intelectuais e comentaristas à direita é dizer as coisas pelo nome, reconhecer o que está diante do nariz ou do topete, admitir que aquilo é aquilo mesmo. E mudar de ideia, só pra variar.
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Comentários (2)
Junior
28.08.2025 05:30Tanto lá como cá, estamos sob a tutela de malucos de carteirinha..."parece o mundo que eu quero descer"...kkkk
Rosa
27.08.2025 18:25Estás certo.