Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil

19.07.2026

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O Antagonista

Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil

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Felipe Moura Brasil
6 minutos de leitura 30.06.2025 13:42 comentários
Análise

Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil

A complacência de parte da imprensa esportiva prejudica a virada de chave mental

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Felipe Moura Brasil
6 minutos de leitura 30.06.2025 13:42 comentários 0
Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil
Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Sou Flamengo. Estive na Filadélfia e assisti no estádio à vitória épica contra o Chelsea, de virada, por 3 a 1, na fase de classificação da Copa do Mundo de Clubes.

Não me iludi com a qualidade do time, em comparação aos grandes da Europa, porque a dificuldade física, técnica e psicológica de jogar sob pressão na saída de bola, ou no próprio campo, ficou clara, sobretudo no primeiro tempo, perdido por 1 a 0.

A falha de Wesley, que, na condição de último homem, tentou amaciar uma bola que vinha do alto, em vez de dar um chute de segurança para o campo adversário, indicou também a dificuldade mental de virar a chave: não se pode arriscar na defesa contra time grande europeu. Atrás, toda bola roubada é meio gol.

Vitória contra o Chelsea

Para a sorte de quem viajou apenas por aquele jogo, o Flamengo conseguiu se impor, porque ganhou agilidade, profundidade e altura quando Bruno Henrique entrou no lugar de Arrascaeta, já que o Chelsea não acertou a marcação em cima do atacante, seja por desconhecimento de suas características, seja pelo forte calor, seja porque sua zaga não é tão atenta assim.

No lance do primeiro gol, Gerson (à direita na foto), o melhor do Flamengo na Copa, acertou um cruzamento, Plata ajeitou de cabeça e Bruno Henrique surgiu no segundo pau, por trás da zaga, escorando para dentro. No gol seguinte, quase um replay, Bruno Henrique foi quem cabeceou a bola na área após um escanteio e Danilo assumiu seu papel, no segundo pau, de escorar.

Foram dois lances consecutivos, precisos e raros, em que o Flamengo fez pela jogada área as triangulações que não conseguia fazer com a bola no chão. Só depois da expulsão de um adversário é que surgiu uma tabelinha entre Plata e Wallace Yan, resultando no gol deste último uma revelação de personalidade.

Problemas

Nada disso, porém, resolveu os problemas da equipe para o jogo contra o Bayern de Munique, que fez 10 a 0 no Auckland City e 2 a 1 no Boca Juniors na primeira fase, eliminando o time argentino. Só perdeu para o Benfica por 1 a 0 quando já estava classificado (e, dizem as más línguas, preferia ficar em segundo no grupo para pegar o Flamengo nas oitavas, não o Chelsea).

Arrascaeta não havia conseguido sair da marcação e se deslocar pelo campo da maneira exigida em jogo contra time grande europeu, o que se torna um problema maior porque os demais confiam em seu talento e acabam errando ao forçar a bola nele, na defesa e no ataque. E o Bayern fez, com mais qualidade e constância, o mesmo que o Chelsea havia feito: marcação alta, com pressão na saída de bola.

Isso exige que jogadores de meio-campo tenham justamente preparo físico e noção tática não só para atacar com a bola no pé, mas para recuar mais, a fim de recebê-la da defesa (de preferência, já com o corpo de lado, não de costas); e que, assim como ela, sejam precisos no passe, não errem o domínio, não penteiem.

O gol contra de Erick Pulgar, no começo do jogo, pode até ser relativizado e relevado como um azar, uma fatalidade, por quem não tem o rigor, como o meu, de colocá-lo na conta da falta de treino de defesa em escanteio, da embolação de três jogadores no primeiro pau, de erros de posicionamento ou nervosismo tudo que faz diferença em partida decisiva, diga-se.

Mas os outros gols, não.

No segundo do Bayern, Pulgar deu bola no aperto a Arrascaeta, que, recebendo de costas para o adversário, errou tudo: não tinha recuado o bastante para sair da marcação, dominou mal, achou que teria tempo para proteger a bola com o corpo e foi desarmado, porque sobram preparo físico e foco em time grande europeu. E Harry Kane não perdoa.

No terceiro gol, o canhoto Luiz Araújo levou uma bola nas costas em tabelinha na área e, quando conseguiu recuperar a posse, chutou de direita, sem força, para o meio da intermediária, buscando alcançar Plata, em vez de neutralizar o perigo. Goretzka dominou, chutou e marcou. Ele estava sozinho, desmarcado, porque os volantes do Flamengo observavam a tabelinha e os atacantes não voltaram o suficiente.

No quarto gol, demonstrando que não aprendeu a lição, Luiz Araújo ainda achou que podia sair driblando na defesa e perdeu a bola, que depois sobrou para Harry Kane fazer o seu segundo.

Complacência

O belo gol do Flamengo em chutaço de Gerson e o pênalti convertido por Jorginho (à esquerda na foto) após interferência de mão dentro da área impediram uma derrota humilhante, mas daí ao enaltecimento vai uma distância imensa que a parte complacente e marqueteira da imprensa esportiva não deveria encurtar.

Jogando compacto, com jogadores completos, que abrem para receber e fecham os espaços, o tempo todo, no campo inteiro, o Bayern deu uma aula aos brasileiros de preparo físico, rigor tático e excelência técnica, bem como de concentração, cognição e profissionalismo, porque a soma dos detalhes que fazem a diferença vai muito além das quatro linhas.

Em 2014, após a derrota humilhante do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 na Copa do Mundo, eu, Felipe, publiquei reunindo alertas ainda mais antigos que fiz o artigo “Não, Galvão, não é ‘uma partida para ser esquecida’”. A nova vitória alemã tampouco deveria ser, porque quem se acomoda com o nível de torneio de várzea nunca vira a chave – na cabeça, na rotina e no campo – para a de mundial.

Por isso, cobro há quase 15 anos que a seleção brasileira tenha um treinador europeu e, apesar do atraso e do imenso trabalho reeducativo pela frente, fiquei feliz com a chegada de Carlo Ancelotti. Mas valorizo a capacidade cognitiva, a humildade e a serenidade de Filipe Luís, técnico e ex-jogador do Flamengo que aprendeu muito em suas experiências na Europa.

Três pontos, pelo menos, precisam ficar culturalmente claros neste país:

  • A complacência acomoda e mediocriza;
  • Não se brinca com quem sabe;
  • Não basta reconhecer a superioridade alheia; é preciso perseguir a excelência à luz dela.

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