Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil

26.10.2026

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O Antagonista
Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil
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Felipe Moura Brasil
6 minutos de leitura 30.06.2025 13:42 comentários
Análise

Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil

A complacência de parte da imprensa esportiva prejudica a virada de chave mental

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Felipe Moura Brasil
6 minutos de leitura 30.06.2025 13:42 comentários 0
Tratar derrota como triunfo do Flamengo mediocriza o Brasil
Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Sou Flamengo. Estive na Filadélfia e assisti no estádio à vitória épica contra o Chelsea, de virada, por 3 a 1, na fase de classificação da Copa do Mundo de Clubes.

Não me iludi com a qualidade do time, em comparação aos grandes da Europa, porque a dificuldade física, técnica e psicológica de jogar sob pressão na saída de bola, ou no próprio campo, ficou clara, sobretudo no primeiro tempo, perdido por 1 a 0.

A falha de Wesley, que, na condição de último homem, tentou amaciar uma bola que vinha do alto, em vez de dar um chute de segurança para o campo adversário, indicou também a dificuldade mental de virar a chave: não se pode arriscar na defesa contra time grande europeu. Atrás, toda bola roubada é meio gol.

Vitória contra o Chelsea

Para a sorte de quem viajou apenas por aquele jogo, o Flamengo conseguiu se impor, porque ganhou agilidade, profundidade e altura quando Bruno Henrique entrou no lugar de Arrascaeta, já que o Chelsea não acertou a marcação em cima do atacante, seja por desconhecimento de suas características, seja pelo forte calor, seja porque sua zaga não é tão atenta assim.

No lance do primeiro gol, Gerson (à direita na foto), o melhor do Flamengo na Copa, acertou um cruzamento, Plata ajeitou de cabeça e Bruno Henrique surgiu no segundo pau, por trás da zaga, escorando para dentro. No gol seguinte, quase um replay, Bruno Henrique foi quem cabeceou a bola na área após um escanteio e Danilo assumiu seu papel, no segundo pau, de escorar.

Foram dois lances consecutivos, precisos e raros, em que o Flamengo fez pela jogada área as triangulações que não conseguia fazer com a bola no chão. Só depois da expulsão de um adversário é que surgiu uma tabelinha entre Plata e Wallace Yan, resultando no gol deste último — uma revelação de personalidade.

Problemas

Nada disso, porém, resolveu os problemas da equipe para o jogo contra o Bayern de Munique, que fez 10 a 0 no Auckland City e 2 a 1 no Boca Juniors na primeira fase, eliminando o time argentino. Só perdeu para o Benfica por 1 a 0 quando já estava classificado (e, dizem as más línguas, preferia ficar em segundo no grupo para pegar o Flamengo nas oitavas, não o Chelsea).

Arrascaeta não havia conseguido sair da marcação e se deslocar pelo campo da maneira exigida em jogo contra time grande europeu, o que se torna um problema maior porque os demais confiam em seu talento e acabam errando ao forçar a bola nele, na defesa e no ataque. E o Bayern fez, com mais qualidade e constância, o mesmo que o Chelsea havia feito: marcação alta, com pressão na saída de bola.

Isso exige que jogadores de meio-campo tenham justamente preparo físico e noção tática não só para atacar com a bola no pé, mas para recuar mais, a fim de recebê-la da defesa (de preferência, já com o corpo de lado, não de costas); e que, assim como ela, sejam precisos no passe, não errem o domínio, não penteiem.

O gol contra de Erick Pulgar, no começo do jogo, pode até ser relativizado e relevado como um azar, uma fatalidade, por quem não tem o rigor, como o meu, de colocá-lo na conta da falta de treino de defesa em escanteio, da embolação de três jogadores no primeiro pau, de erros de posicionamento ou nervosismo — tudo que faz diferença em partida decisiva, diga-se.

Mas os outros gols, não.

No segundo do Bayern, Pulgar deu bola no aperto a Arrascaeta, que, recebendo de costas para o adversário, errou tudo: não tinha recuado o bastante para sair da marcação, dominou mal, achou que teria tempo para proteger a bola com o corpo e foi desarmado, porque sobram preparo físico e foco em time grande europeu. E Harry Kane não perdoa.

No terceiro gol, o canhoto Luiz Araújo levou uma bola nas costas em tabelinha na área e, quando conseguiu recuperar a posse, chutou de direita, sem força, para o meio da intermediária, buscando alcançar Plata, em vez de neutralizar o perigo. Goretzka dominou, chutou e marcou. Ele estava sozinho, desmarcado, porque os volantes do Flamengo observavam a tabelinha e os atacantes não voltaram o suficiente.

No quarto gol, demonstrando que não aprendeu a lição, Luiz Araújo ainda achou que podia sair driblando na defesa e perdeu a bola, que depois sobrou para Harry Kane fazer o seu segundo.

Complacência

O belo gol do Flamengo em chutaço de Gerson e o pênalti convertido por Jorginho (à esquerda na foto) após interferência de mão dentro da área impediram uma derrota humilhante, mas daí ao enaltecimento vai uma distância imensa que a parte complacente e marqueteira da imprensa esportiva não deveria encurtar.

Jogando compacto, com jogadores completos, que abrem para receber e fecham os espaços, o tempo todo, no campo inteiro, o Bayern deu uma aula aos brasileiros de preparo físico, rigor tático e excelência técnica, bem como de concentração, cognição e profissionalismo, porque a soma dos detalhes que fazem a diferença vai muito além das quatro linhas.

Em 2014, após a derrota humilhante do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 na Copa do Mundo, eu, Felipe, publiquei — reunindo alertas ainda mais antigos que fiz — o artigo “Não, Galvão, não é ‘uma partida para ser esquecida’”. A nova vitória alemã tampouco deveria ser, porque quem se acomoda com o nível de torneio de várzea nunca vira a chave – na cabeça, na rotina e no campo – para a de mundial.

Por isso, cobro há quase 15 anos que a seleção brasileira tenha um treinador europeu e, apesar do atraso e do imenso trabalho reeducativo pela frente, fiquei feliz com a chegada de Carlo Ancelotti. Mas valorizo a capacidade cognitiva, a humildade e a serenidade de Filipe Luís, técnico e ex-jogador do Flamengo que aprendeu muito em suas experiências na Europa.

Três pontos, pelo menos, precisam ficar culturalmente claros neste país:

  • A complacência acomoda e mediocriza;
  • Não se brinca com quem sabe;
  • Não basta reconhecer a superioridade alheia; é preciso perseguir a excelência à luz dela.

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