The Economist pegou leve com Lula

22.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
The Economist pegou leve com Lula
avatar
Catarina Rochamonte
6 minutos de leitura 03.07.2025 10:46 comentários
Análise

The Economist pegou leve com Lula

A revista apenas explicita o que qualquer um que não seja lulista fanático não tem mais dúvida: o presidente brasileiro tornou-se um ator irrelevante, quando não nocivo, no cenário internacional

avatar
Catarina Rochamonte
6 minutos de leitura 03.07.2025 10:46 comentários 8
The Economist pegou leve com Lula
Imagem: The Economist/ Illustration: Lehel Kovács

Trabalhar com análise política é interessante, mas, às vezes, se torna um tanto fastidioso, tendo em vista a necessidade de repisar obviedades “ululantes”.

Tenho insistido especificamente na incoerência de Lula, que se autoproclama líder democrático ao mesmo tempo em que defende ditaduras amigas; que se proclama pacifista ao mesmo tempo em que se derrete de amores pelo belicista Putin.

Em janeiro de 2024, escrevi o artigo “Lula: cai a máscara democrática de um tirano”; em janeiro de 2025, escrevi “Lula: um abraço na democracia, outro em Maduro”, dentre dezenas de outros textos nos quais repiso a hipocrisia do presidente brasileiro.

Foi, portanto, com interesse que li a matéria da revista britânica The Economist, que expõe a “política externa cada vez mais incoerente de Lula”. Antes tarde do que nunca, pensei eu. Já era tempo de o mundo livre abrir bem os olhos a respeito da hostilidade de Lula contra o Ocidente.

Embora a matéria tenha levado a uma furiosa retaliação verborrágica da mídia governista, a ponto de determinados portais chamarem a publicação de “preconceituosa, obtusa e reacionária”,trata-se de uma reportagem quase descritiva, com pouco juízo de valor.

A reportagem traz o seguinte título: “Presidente do Brasil perde influência no exterior e é impopular em casa”. É um fato, não uma interpretação.

O texto – que começa apontando a veemente condenação do governo brasileiro ao ataque americano às instalações nucleares do Irã – segue explicitando a incoerência e a obtusidade da atual política externa brasileira:

“Lula corteja a China”, diz a revista, lembrando que ele se encontrou com Xi Jinping duas vezes no ano passado e que não fez nenhum esforço para estreitar laços com os Estados Unidos desde a eleição de Donald Trump.

“Lula foi o único líder de uma grande democracia a comparecer às comemorações russas do fim da Segunda Guerra Mundial”, diz a matéria, acrescentado que Putin nem ninguém deu ouvidos ao seu interesse de mediar a guerra na Ucrânia.

Lula tampouco consegue assumir protagonismo e pragmatismo na América Latina, afirma ainda a revista:

“Quando assumiu o cargo pela terceira vez, em 2023, apoiou Nicolás Maduro, o autocrata da Venezuela”, denuncia The Economist, apontando também o distanciamento de Lula em relação ao presidente argentino Javier Milei por motivos meramente ideológicos e o esquecimento do Haiti, que “se afunda em um inferno governado por gângsteres”.

Por fim, a matéria conclui acerca da irrelevância do Brasil no contexto das guerras nas quais Lula insiste em se meter: “nas questões geopolíticas mais urgentes, como a guerra na Ucrânia ou o Oriente Médio, o Brasil simplesmente não é muito importante. Lula deveria parar de fingir que é e se concentrar em questões mais próximas”.

Tudo isso é coisa sabida, denunciada na referida reportagem de forma até comedida. Os gringos pegaram leve com Lula.

A revista apenas explicita o que qualquer um que não seja lulista fanático não tem mais dúvida: o presidente brasileiro tornou-se um ator irrelevante, quando não nocivo, no cenário internacional, que foi palco da sua maior ambição e de esforços inauditos de projeção.

A hostilidade de Lula ao mundo livre é proclamada por ele mesmo, ao alinhar-se ao chamado Sul Global; caminho no qual é insuflado pela extrema-esquerda brasileira que adotou o discurso decolonialista que demoniza a Civilização Ocidental.

Já a simpatia de Lula pelo Irã avança para o apoio sempre que aparece oportunidade; e vem de longe, desde os primeiros mandatos.

A reação do Itamaraty

Mais do que a reportagem sem surpresas da revista The Economist, atraiu minha curiosidade a carta assinada pelo ministro ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira: uma coisa elaborada não pela prudência diplomática, mas por insidioso rancor; atitude incompatível com as tradições de apuro e competência da diplomacia brasileira desde os tempos do Barão do Rio Branco.

A carta do Itamaraty, respondendo à reportagem da revista The Economist sobre o presidente Lula, revela mais sobre este personagem do que as verdades ditas pela revista britânica. É bizarro que o Ministério das Relações Exteriores ocupe seu tempo respondendo reportagens adversas publicadas ao redor do mundo.

Ao primeiro olhar já podemos perceber que ao Itamaraty coube apenas alinhavar a narrativa do presidente contrariado e ressentido.

“Poucos líderes mundiais, como o Presidente Lula, podem dizer que sustentam com a mesma coerência os quatro pilares essenciais à humanidade e ao planeta: democracia, sustentabilidade, paz e multilateralismo”, diz a carta oficial.

Essa afirmação medeia entre a incoerência e a hipocrisia. O próprio Lula já declarou que a democracia, para ele, é uma mera questão de “narrativa”.

O presidente brasileiro foi – em alguns casos continua sendo – apoiador (às vezes financiador) de um extenso número de ditaduras e regimes autoritários: Cuba, Bolívia (ao tempo de Evo Morales), Venezuela, Rússia, Irã, etc.

“Sob a liderança de Lula, o Brasil tornou-se um raro exemplo de solidez institucional e de defesa da democracia”, prossegue o documento assinado pelo ministro Mauro Vieira.

Pelo contrário, sob a liderança de Lula, o Brasil tornou-se um raro exemplo de país formalmente democrático que defende e apoia ditaduras e regimes autoritários ao redor do mundo.

“Na gestão do Presidente Lula, o Brasil condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, ao mesmo tempo em que apontou a necessidade de abrir caminhos para uma resolução diplomática do conflito, ainda em 2023”, continua o texto vexaminoso.

Todo mundo sabe que na gestão do presidente Lula, o Brasil adotou posição dúbia quanto à guerra da Ucrânia, com indisfarçável viés pró Rússia; chegando ao ponto de igualar o país invadido ao país invasor na responsabilidade pela guerra.

“Para humanistas de todo o mundo, incluindo políticos, líderes empresariais, acadêmicos e defensores dos direitos humanos, o respeito à autoridade moral do presidente Lula é indiscutível.”

Esse trecho chega a ser risível. Certamente que a autoridade moral do presidente Lula é discutível; tanto que suas atitudes tíbias, incongruentes e suas narrativas mistificadoras costumam ser discutidas e refutadas no Brasil e mundo afora, a exemplo do que acaba de ser feito pela revista The Economist e pelo presente artigo.

Estranha democracia e estranho mundo seria esse no qual a “autoridade moral” de Lula seria indiscutível. Mas é para uma distopia como essa que o governo brasileiro tende, ao insistir nas suas mentiras e apostar na censura contra todos aqueles que ousam discordar das “verdades” oficiais.

Essa carta miúda do Itamaraty é mais um episódio vergonhoso de uma diplomacia que se apequenou, submetida ao ego inflado de um presidente que se socorre dos naufrágios da sua incompetência no barco ligeiro das falácias, sofismas e narrativas de ocasião.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Crusoé: Um recado de Lula para o “general Janones”

Crusoé: Um recado de Lula para o “general Janones”
2

Campanha de Lula pede cassação da chapa de Flávio por abuso de poder econômico

Campanha de Lula pede cassação da chapa de Flávio por abuso de poder econômico
3

Gerp: Flávio tem 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula

Gerp: Flávio tem 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula
4

MPF pede à Justiça que Meta reative contas bloqueadas na eleição

MPF pede à Justiça que Meta reative contas bloqueadas na eleição
5

Centrão busca acordo para aprovar reforma política e barrar ‘efeito Nikolas’

Centrão busca acordo para aprovar reforma política e barrar ‘efeito Nikolas’
6

Coordenador de Lula diz que petista aceita condições de Flávio para abrir sigilos

Coordenador de Lula diz que petista aceita condições de Flávio para abrir sigilos
7

Fotos mostram Lulinha e lobista em jatinho e festas com empresários

Fotos mostram Lulinha e lobista em jatinho e festas com empresários
8

Celina recua na disputa pelo governo do DF, aponta Quaest

Celina recua na disputa pelo governo do DF, aponta Quaest
9

A estratégia de Lula para evitar Flávio como ‘papagaio de pirata’

A estratégia de Lula para evitar Flávio como ‘papagaio de pirata’
10

Nunes Marques dá prazo para Flávio e aliados apagarem 20 conteúdos sobre Lula

Nunes Marques dá prazo para Flávio e aliados apagarem 20 conteúdos sobre Lula
1

"Lula está arrumando desculpas para não ir ao último debate", diz Tarcísio

"Lula está arrumando desculpas para não ir ao último debate", diz Tarcísio
2

Fotos mostram Lulinha e lobista em jatinho e festas com empresários

Fotos mostram Lulinha e lobista em jatinho e festas com empresários
3

Gerp: Flávio tem 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula

Gerp: Flávio tem 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula
4

A estratégia de Lula para evitar Flávio como ‘papagaio de pirata’

A estratégia de Lula para evitar Flávio como ‘papagaio de pirata’
5

Celina recua na disputa pelo governo do DF, aponta Quaest

Celina recua na disputa pelo governo do DF, aponta Quaest
6

Willer Tomaz processa Porchat por episódio de “República das Laranjas”

Willer Tomaz processa Porchat por episódio de “República das Laranjas”
7

Crusoé: Putin aceita retomar negociações com Ucrânia e EUA

Crusoé: Putin aceita retomar negociações com Ucrânia e EUA
8

Lula cria secretaria para explorar terras raras e minerais críticos na reta final das eleições

Lula cria secretaria para explorar terras raras e minerais críticos na reta final das eleições
9

PSB e PDT oficializam apoio à reeleição de Hugo Motta

PSB e PDT oficializam apoio à reeleição de Hugo Motta
10

Musk reduziu velocidade em satélites usados por Kiev, diz WSJ

Musk reduziu velocidade em satélites usados por Kiev, diz WSJ
1

CNBB orienta eleitores a avaliar compromisso de candidatos com a democracia

CNBB orienta eleitores a avaliar compromisso de candidatos com a democracia
2

Campanha de Lula pede cassação da chapa de Flávio por abuso de poder econômico

Campanha de Lula pede cassação da chapa de Flávio por abuso de poder econômico
3

Defensoria aciona STF para obrigar transporte gratuito no 2º turno

Defensoria aciona STF para obrigar transporte gratuito no 2º turno
4

Nunes Marques dá prazo para Flávio e aliados apagarem 20 conteúdos sobre Lula

Nunes Marques dá prazo para Flávio e aliados apagarem 20 conteúdos sobre Lula
5

MPF pede à Justiça que Meta reative contas bloqueadas na eleição

MPF pede à Justiça que Meta reative contas bloqueadas na eleição
6

Roberta Luchsinger expõe viagens de Lulinha e cobra Lula

Roberta Luchsinger expõe viagens de Lulinha e cobra Lula
7

Exclusivo: governador eleito de MG fala sobre Flávio, Lula e dívida

Exclusivo: governador eleito de MG fala sobre Flávio, Lula e dívida
8

Quebra de sigilo entre Lula e Flávio: jogada séria ou teatro eleitoral?

Quebra de sigilo entre Lula e Flávio: jogada séria ou teatro eleitoral?
9

Willer Tomaz rebate Richarlison e diz que jogador comprou ilha de “invasor”

Willer Tomaz rebate Richarlison e diz que jogador comprou ilha de “invasor”
10

Orquestra jovem paulista disputa Grammy Latino

Orquestra jovem paulista disputa Grammy Latino

Tags relacionadas

Luiz Inácio Lula da Silva
< Notícia Anterior

Esse sintoma discreto pode ser o primeiro sinal de câncer no intestino

03.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

As 8 pessoas que você nunca deve ajudar segundo a Bíblia

03.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (8)

Beth 11

08.07.2025 14:20

Sempre excelente e inteligente texto da Catarina !! Obrigada, fico de alma lavada!!


Clayton De Souza pontes

04.07.2025 08:17

Realmente não temos nada pra mostrar de positivo e democrático na política externa. E na politica interna ainda temos os feitos do Mensalão e Petrolão pra ilustrar a compra de votos pelo governo esquerdista que são fraudes à nossa democracia, dentre outros


Washington

03.07.2025 14:47

Mesmo pegando leve, a reportagem da The Economist pesa muito para inviabilizar o Prêmio Nobel tão pretendido por Lula; daí o rancor extravasado na carta do Itamaraty.


MARCOS

03.07.2025 13:58

ACREDITO QUE O ITAMARATI, A DIPLOMACIA BRASILEIRA, DESCEU AO FUNDO DO POÇO E ESTÁ CAGADA DE LAMA. OS PORCOS SE LAMBUZAM NA BOSTA.


Washington

03.07.2025 12:58

The Economist pegou leve com Lula; já a Catarina, mais uma vez, pegou pesado.


Andre Luis Dos Santos

03.07.2025 12:11

Excelente e irretocável. Lula, Mauro Vieira, Amorim, etc., são uma vergonha. Deus permita que em 2026 esse MERDA leve um PE NA BUNDA nas urnas e va se recolher a sua insignificância. NOJO dessa escória.


Joaquim

03.07.2025 11:29

Quando vejo esse senhor falando, falando, falando merda - e ele só fala merda - , quando vejo esse STF horrível, quando vejo esse congresso só fazendo merda, fico pensando o que nós brasileiros fizemos para merecer tanta coisa ruim junta. Resumo: O povo brasileiro está ferrado.


Annie

03.07.2025 10:59

Só aqui no Antagonista conhecemos a política como ela é , parabéns pelo artigo.


Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.