Tarifas de Trump sobre o Brasil: 50% política, 50% fanatismo, 0% comercial

07.03.2026

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O Antagonista

Tarifas de Trump sobre o Brasil: 50% política, 50% fanatismo, 0% comercial

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Pedro Kazan
6 minutos de leitura 10.07.2025 09:57 comentários
Análise

Tarifas de Trump sobre o Brasil: 50% política, 50% fanatismo, 0% comercial

Em meio à encenação, quem perde de verdade são os exportadores, os consumidores e a previsibilidade que deveria reger o comércio global

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Pedro Kazan
6 minutos de leitura 10.07.2025 09:57 comentários 1
Tarifas de Trump sobre o Brasil: 50% política, 50% fanatismo, 0% comercial
Foto: Daniel Torok/Casa Branca

Eu sou um profissional do mercado financeiro há mais de 25 anos, há alguns meses vivo na Europa, dirijo um carro dos sonhos e viajo praticamente todos os finais de semana com liberdade e segurança, seja de carro, trem ou avião. Nem precisa ser rico para fazer isso por aqui.

Sou um amante da meritocracia e de uma economia livre de políticos fanáticos e ideologias baseadas em frustração individual.

Dito isso, não estou aqui para defender Donald Trump, Lula, Jair Bolsonaro ou Supremo Tribunal Federal, mas, sim, para apresentar análises econômicas sem viés lunático ou submisso a políticos de estimação.

Políticos bons são meros servidores públicos desconhecidos, porém dedicados, como bons síndicos mal pagos. São assim na Suíça e talvez por isso tudo funcione bem por lá.

Com as expectativas alinhadas, podemos agora pular o oceano atlântico de volta às Américas.

Política externa ou palanque teatral?

Donald Trump não mede palavras — nem tarifas. O anúncio de uma alíquota de 50% sobre produtos brasileiros, feito com pompa e circunstância na quarta-feira, 9 de julho, foi interpretado por Brasília como um golpe, mas não daqueles estratégicos: foi um golpe teatral, temperado com fanatismo e zero embasamento econômico.

À primeira vista, poderia parecer mais uma jogada na eterna disputa comercial global, mas o que se vê nos bastidores é um episódio de política internacional transformado em palanque pessoal. E no final das contas, será que afeta mais o governo Lula ou as empresas do agro?

Déficit? Só se for de lógica

O argumento oficial da Casa Branca para aplicar a sobretaxa: “déficits comerciais insustentáveis” com o Brasil. Só há um problema: ele não existe.

Nos últimos 17 anos, o Brasil acumulou mais de US$ 90 bilhões de déficit com os Estados Unidos. Em 2025, seguimos no vermelho.

Ou seja, Trump reclama de um rombo comercial que, se existisse, estaria no lado oposto do balcão. Na prática, os Estados Unidos vendem mais para o Brasil do que compram.

A própria diplomacia brasileira já vinha usando essa lógica para evitar novas sanções. Mas parece que, com Trump, números têm menos peso do que narrativas — especialmente quando envolvem velhos aliados ideológicos.

Exportação brasileira sob ataque — e a inflação americana também

Os impactos da tarifa tendem a ser imediatos.

Café, carne bovina e suco de laranja — produtos em que o Brasil é altamente competitivo — se tornam inviáveis de exportar com esse novo custo.

Para o Brasil, isso significa menos receita e mais incerteza no agronegócio. Para os EUA, mais inflação no café da Starbucks e no lanche do McDonald’s.

Ironia das ironias: ao mirar no inimigo imaginário, Trump pode ter acertado o bolso do consumidor americano e do empresário do agro brasileiro, o qual Lula tem prazer em bater publicamente. É inflação na veia!

Tudo isso para defender Bolsonaro? Parece mais uma reedição do slogan “Make America Great Again” (Faça a América Grande Novamente) com roteiro improvisado tupiniquim.

A diplomacia sob fogo cruzado

O Itamaraty agiu com cautela, mas precisou convocar o representante americano no Brasil. A tensão diplomática escalou.

A retórica de Trump contra o STF e em defesa do ex-presidente Bolsonaro deixou claro que o foco não é carne, café ou suco. É o Supremo. É o Brics. É Lula. É a política brasileira.

Cereja no bolo: a menção explícita na carta de Trump de que Bolsonaro está sendo perseguido (citou o termo “caça às bruxas”) e que seu julgamento deveria “acabar imediatamente”.

O que parecia ser uma sanção comercial revelou-se, de forma quase caricata, uma ingerência em processos internos de outro país.

A volta da retaliação ideológica

Desde que o Brasil sediou a cúpula do Brics e defendeu o uso de moedas locais nas trocas comerciais, o tom de Washington mudou.

O recado de Trump veio rápido: quem se alinhar com o Brics paga caro. Literalmente. Com 50% de sobretaxa.

Mais do que proteger a indústria americana, Trump quer usar tarifas como punição simbólica. Um aviso a outros parceiros: alinhem-se ou arquem com o custo. O Brasil virou exemplo público. O comércio internacional virou ringue eleitoral.

O risco de virar espetáculo recorrente

Essa não é a primeira — e provavelmente não será a última — vez que Trump transforma política comercial em instrumento de teatro.

Já fez isso com a China, com o Vietnã, com o México. Os resultados foram desastrosos. As empresas americanas perderam valor, o dólar oscilou brutalmente, e a credibilidade dos EUA como parceiro de negócios afundou em incertezas, principalmente com um antigo aliado político e econômico: a Europa.

O Brasil entra agora na mesma peça, com roteiro reciclado. O problema é que, em meio à encenação, quem perde de verdade são os exportadores, os consumidores e a previsibilidade que deveria reger o comércio global.

Quando o comércio vira palco de fanatismo

Em vez de pragmatismo econômico, temos uma guerra tarifária construída sobre ressentimentos, alinhamentos ideológicos e revisionismo geopolítico.

As tarifas de Trump ao Brasil são, acima de tudo, uma confissão: a racionalidade foi expulsa da política externa americana.

Se esse é o modelo de liderança global do século XXI, talvez seja hora de os países emergentes rediscutirem o que significa “parceria estratégica”.

Porque, no teatro de Trump, quem entra em cena como aliado (lembre-se de Elon Musk) pode sair como vilão, antes do fechamento das cortinas.

Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.

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Pedro Kazan

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Comentários (1)

Annie

10.07.2025 10:57

Excelente artigo.


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