Tarcísio precisa mesmo dos Bolsonaro?
Governador de SP hesita em se afastar do bolsonarismo, e corre o risco de ver os votos do centro rumando à esquerda
O debate público no Brasil é preguiçoso e dado à conformidade. As notícias mudam e são sempre as mesmas. Quando se trata de eleições, próximas ou distantes, essa propensão de converter sofisma em dogma, diagnóstico em prognóstico, possibilidade em profecia, fica ainda mais evidente.
Desde que Jair Bolsonaro enfiou na cabeça a ideia de que poderia ser presidente, ideia essa de cuja cabeça Lula nunca tirou, nossas discussões consistem em vaticinar, com o dedo em riste, que não existe alternativa a Bolsonaro se não for o Lula, e não existe alternativa a Lula se não for o Bolsonaro.
Me lembro muitíssimo bem que, já em meados de 2017, dois ou três semestres antes da festa da democracia, eleitores da classe-média razoavelmente bem informada lamentavam que só mesmo o bolsonarismo poderia nos livrar do lulopetismo.
Conheci alguns e perguntei a eles se não era um pouquinho cedo para descartar candidaturas mais ao centro, como as então possíveis dos Joões, o Amôedo ou o Dória. Não, não era cedo, diziam, com “olho rútilo e lábio trêmulo”. Só mesmo um político do baixo clero dado a biblicamente comer galinhas seria capaz de levar o “comunismo” à extinção.
Bom, depois de extinguir a Operação Lava Jato, de tentar extinguir milhares de brasileiros durante a desastrosa pandemia e de cogitar extinguir a ordem democrática no infelizmente histórico 8 de janeiro, Bolsonaro e seus filhos querem dificultar a vida de quem herdará o espólio da direita.
Para as próximas eleições majoritárias, o mais preguiçoso dos sofismas é o seguinte: qualquer candidato à direita precisa, não importa quais forem as condições ou circunstâncias, pegar o vexatório pedágio ao bolsonarismo.
De todos os aspirantes ao Planalto, o governador Tarcísio de Freitas despontava como o mais pré-eleito entre os pré-candidatos. Mas, dizem, tinha de orbitar em torno do ex-presidente, para aproveitar a transferência dos votos coagulados por ali.
A dita grande imprensa, pudica como a personagem Perpétua de Joana Fomm em Tiêta, faz caras e editoriais de nojo para o que considera uma indesculpável e comprometedora adesão do governador paulista ao inelegível e pré-condenado.
Alguma razão eles têm. Bolsonaro não é companhia com quem se ande. Mas as eleições têm razões que a própria razão desconhece, e se nos coubesse, como candidato à direita, uma versão pragmática e moderada do bolsonarismo, que assim fosse, que assim seja.
De repente, veio o tarifaço de Trump. Com ele, a indecisão de Tarcísio. Defende Bolsonaro e abandona o empresariado, defende o empresariado e abandona Bolsonaro? A hesitação lhe fez perder pontos dos dois lados. Pontos ganhos pelo Lula, como revela nosso Lulômetro.
Mas, pensando bem, com ainda tantos meses pela frente, com Eduardo Bolsonaro convertido em blogueiro nos EUA, com Jair Bolsonaro às portas da cadeia, Tarcísio precisava mesmo capitular? Precisava mesmo retomar conversas com o pai e fingir as pazes com o filho? Tarcísio não estaria perdendo a chance de se desgarrar de um sobrenome que não é o seu?
Estamos, mais uma vez, há três semestres do próximo mandato. Estamos, mais uma vez, hipnotizados pelo fatalismo eleitoral – convertendo sofisma em dogma, diagnóstico em prognóstico, possibilidade em profecia. Depois os “moderados” não reclamem de falta de opções caso Lula vença mais uma vez.
Veja também: Bolsonaro interfere porque precisa de Tarcísio
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Comentários (4)
Luis Eduardo Rezende Caracik
17.07.2025 21:45Outro dia ouvi Ronaldo Caiado declarar que, se eleito, seu primeiro ato seria conceder anistia ou perdão a Bolsonaro et caterva. Isso o coloca no mesmo cercado daqueles que hoje desafiam a soberania nacional, como o faz Trump. Não terá meu voto. A mesma pergunta deve ser feita pelos jornalistas a Tarcísio. Se esta for sua postura também, igualmente não terá meu voto, e acho que de muitas outras pessoas também. Vamos senhores jornalistas: criem coragem e façam boas perguntas.
Sérgio Fogel
17.07.2025 19:43Como ministro do Bozo foi um dos poucos a apresentar algum resultado, não me lembro de nenhum escândalo o envolvendo, portanto poderia ser um bom candidato a uma opção ao bozo e família, só não sei se o pessoal da direita veria dessa formal..
Rosa
17.07.2025 18:47Gente das bolhas......Fábio.
Fabio B
17.07.2025 17:39É um cálculo político complicado, mas eu pessoalmente acho que ele mais perde do que ganha. Já é o candidato que une o Centrão, tem o apoio do STF e dos bancões. Precisa mais do quê para se eleger?