Se Lindbergh confia no Banco Central, quem não desconfia?
“Agora a gente tem influência na política cambial, monetária e fiscal”, celebrou o futuro líder do PT na Câmara, o que só alimenta a desconfiança sobre o trabalho de Galípolo
Futuro líder do PT na Câmara, o deputado federal Lindbergh Farias (RJ) dificultou um pouco mais nesta segunda-feira, 23, a missão de Gabriel Galípolo de se estabelecer como um presidente do Banco Central que passe confiança, comprometido com o controle da inflação.
Em entrevista publicada pelo Valor nesta segunda, o petista diz que “está muito claro que ele [Galípolo] primeiro se ocupará de estabilizar o câmbio e em um segundo momento deve haver a preocupação em desacelerar muito a economia com essa taxa de juros”.
Esse “segundo momento” mencionado por Lindbergh não é assunto para o presidente do Banco Central, que não tem como controlar a inflação se estiver preocupado em não desacelerar o crescimento da economia.
“Muda completamente o nosso posicionamento”
“Galípolo foi escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isso muda completamente o nosso posicionamento”, disse também o deputado, um dos críticos do trabalho de Roberto Campos Neto, lançando mais uma nuvem de dúvidas sobre o futuro presidente do BC, três dias após Lula prometer que “jamais” vai interferir em seu trabalho.
Lindbergh foi bem claro sobre suas expectativas: “Agora a gente tem influência na política cambial, monetária e fiscal”.
Segundo o petista, “Galipolo não é da turma da Faria Lima, onde há contaminação política e quase todo mundo é de oposição” e “ele tem como começar a construir expectativas para um ajuste na política de juros”.
Depende de Lula
O ajuste na política de juros não cabe a Galípolo, contudo, mas ao governo Lula, como destacou em artigo Henrique Meirelles, presidente do BC nos dois primeiros mandatos do petista:
“O nervosismo recente do mercado mostra que a necessidade de um ajuste fiscal para conter a trajetória ascendente da dívida pública é uma agenda urgente para o governo a partir de janeiro.”
Os juros só vão começar a cair de forma consistente depois que o governo Lula controlar esse aumento da dívida pública.
Até agora, Galípolo seguiu o script à risca. Rasgou elogios a Campos Neto e desmentiu, ao receber o bastão do presidente que deixa o comando do BC, toda a narrativa petista sobre ataque especulativo contra o real, uma fantasia alimentada para eximir Lula de culpa pela disparada do dólar.
Inflação
Meirelles já disse claramente o que precisa ser feito pelo indicado por Lula: “Galípolo assumirá num momento em que o governo critica a ação do BC e terá de fazer o melhor para o País, que é o controle da inflação”.
Qualquer passo fora da tentativa de controlar a inflação vai prejudicar a missão de Galípolo de fazer “o melhor para o país“. E os petistas que cobrarem esses desvios do futuro presidente do BC não estarão fazendo mal apenas a Galípolo, mas ao Brasil inteiro.
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