Se Flávio é o “Bolsonaro moderado”, Jair é o quê?
Aos Tomés, que precisam ver e tocar, ele jura que sua candidatura é pra valer, ainda que sua palavra não valha trinta moedas
Quando Joel Pinheiro disse, na Folha, que Precisamos do bolsonarismo moderado, o movimento ideológico-familiar ainda não tinha se dispersado em prisões, fugas, traições, neuroses e planos que nunca deram nem dariam certo. Havia jujuba discursiva a ser vendida no farol da Faria Lima.
Joel foi xingado por progressistas e bolsonaristas. Pelos primeiros, porque não aceitam qualquer tipo de bolsonarismo. Pelos segundos, porque não admitem qualquer tipo de moderação.
A hipótese era a seguinte: se Bolsonaro captou o espírito antipetista do nosso tempo, e assim cooptou milhões de eleitores antipetistas ou entediados, não haveria espaço para a viabilidade eleitoral de uma direita civilizada, que tomasse vacina, se essa direita não batesse provisória continência ao capitão.
A direita acreditou e ainda hoje bate continência. Para mim, mais do que hipótese, é uma profecia auto-realizável: não existe direita eleitoralmente forte às margens do bolsonarismo porque ninguém às margens do bolsonarismo se apresenta como direita eleitoralmente forte.
Nos meses que antecederam a corrida eleitoral de 2018, por exemplo, muitos eleitores descartaram com demasiada antecipação quaisquer outros candidatos à direita, porque, em tese, não venceriam Lula. Mas tais candidatos não venceriam Lula justamente porque foram descartados com demasiada antecipação.
Sobrou Bolsonaro, e deu no que deu.
Isso talvez explique as hesitações do governador paulista Tarcísio de Freitas, que até hoje não decide em qual canoa enfia o outro pé. Deveria escutar o pastor Malafaia. (Convenhamos, não é difícil escutar o pastor Malafaia.)
Eis que, de repente, o mais fisiológico e menos barulhento dos herdeiros e desordeiros agora oferece a si mesmo, no farol da Faria Lima, como “esse Bolsonaro mais moderado, equilibrado e centrado”, que, ele espera, “se reflita, inclusive, na confiança da população de que vamos apresentar o melhor projeto para o Brasil”.
Ele está confessando – repito: ele está confessando – que seu pai é o que é. É o que sempre achamos que ele fosse.
Se, perto do pai, ele é moderado, seu pai é imoderado. Se, perto do pai, ele é equilibrado, seu pai é desequilibrado. Se, perto do pai, ele é centrado, seu pai excêntrico.
Essa confissão bastará para convencer os incréus ou especuladores de que um “bolsonarismo moderado” é possível? Deveria servir para convencer incréus e especuladores de que não precisamos de bolsonarismo nenhum, com ou sem adjetivo.
Aos Tomés, que precisam ver e tocar, ele jura que sua candidatura é pra valer, ainda que sua palavra não valha trinta moedas. De dia, diz a empresários o que empresários querem ouvir. De noite, ouve de Pablo Marçal o que Pablo Marçal quer dizer.
Como um digno representante do Centrão, que sabota o sistema enquanto se beneficia dele, Flávio seguirá por mais alguns meses entre a campanha e a chantagem, entre a vontade e a representação. Minha aposta? Contra quem disputar, perderá. E se no final das contas vencer? Quem terá perdido é o Brasil.
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