Quem com diminutivo fere, com diminutivo será ferido
O jornalismo opinativo (que também pratico) não pode ser usado como álibi para desinformação ou desapreço pela tragédia alheia
Não faz muito tempo, Jair Bolsonaro se esforçava por debelar a pandemia do coronavírus a golpes de diminutivo. O vírus, que àquela altura já matara milhares e ainda mataria milhões, foi rebatizado pelo ex-presidente de “gripezinha”, como se um ajuste semântico inoculasse anticorpos em sua atávica estupidez.
A imprensa adorou. Não tinha sido a primeira nem seria a última das manifestações estapafúrdias de um mandatário com vasto repertório de manifestações estapafúrdias, mas, com razão, foi apontada por jornalistas e adversários como antológico exemplo para o bestialógico político nacional.
O problema é que, tanto quanto os políticos, os jornalistas também vivem de falar. E às vezes falam muito. E às vezes enfiam diminutivos onde não deviam.
Em meio a uma guerra que pode vir a matar milhares, Eliane Cantanhêde, no programa Em Pauta, da Globo News, se perguntou, e nos perguntou, “por que os mísseis de Israel destroem Gaza, matam milhares e milhares de pessoas e os mísseis que saem do Irã e efetivamente caem em Israel não matam ninguém? Tem uma mortezinha daqui e outra ali, 23 feridos daqui e 40 dali. Eu não consigo entender porque essa guerra o Irã atinge o alvo e não mata ninguém”.
As mortes foram rebatizadas de “mortezinhas”. As “mortezinhas” ganharam o sobrenome de “ninguém”. Justo ela, vejam só, que em artigo de 2022, apontava o cinismo bolsonarista no uso do diminutivo. Mas, claro, ela se expressou mal.
Tão logo a repercussão de sua acurada análise de estratégia militar caiu no amplificador das redes sociais, ela se apressou a fazer uma releitura de si mesma e, como de costume nesses casos, garantiu que não é bem assim. Ela garantiu que “condena o antissemitismo” (começou bem) e que não é “um monstro poucas mortes em qualquer guerra que seja” (está melhorando), mas – e poucas coisas boas vêm depois de certas adversativas – “é importante entender por que os ataques do Irã são menos mortais que os israelenses” (volte duas casas).
Reconheceu que se expressou mal (muito mal); que deu margem a conclusões equivocadas (corretas, na verdade); que tais conclusões não representam seu pensamento (representam o pensamento de quem?). Por fim, pediu desculpas (Allá há de perdoar!) e explicou que “a intenção foi fazer uma pergunta técnica sobre armamentos e sistemas de defesa” – e então fez a pergunta menos “técnica sobre armamentos e sistema de defesa” que um jornalista experiente já fez desde a derrota de Napoleão em Waterloo.
Diminutivos à parte, o fato é que o jornalismo opinativo (que também pratico) não pode ou não deveria ser usado como álibi para desinformação ou desapreço pela tragédia alheia. Pela mortezinha. Pela mortezinha de ninguém. Seja com padrão Globo de qualidade ou não.
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Comentários (2)
MARCOS
23.06.2025 20:45COITADINHA DELA. TODOS OS COMUNISTAS SÃO DOENTINHOS MENTALZINHOS.
Aurea Marchetti Moraes
23.06.2025 15:09Se dizer "leiga" ao fazer uma pergunta dessas; não foi, nada mais que, induzir seu público , ao lado errado da história .