Preço do ‘churrasco da Copa’ é choque de realidade
O açougueiro do bairro não é o vilão, mas apenas o mensageiro de um mercado globalizado que precifica a proteína vermelha como ativo escasso
Por Guto Gioielli*
Não há nada mais genuinamente brasileiro do que reunir os amigos em dia de jogo da Seleção, acender o carvão na churrasqueira e abrir uma cerveja estupidamente gelada.
É o momento em que o país quase esquece a polarização política e se une em torno do manto verde e amarelo e do cheiro da gordura na brasa.
O torcedor que foi ao açougue se preparar para a próxima partida do Brasil, no entanto, teve um choque de realidade macroeconômica difícil de engolir.
Na atual escalação, a picanha virou artigo de exportação, o contrafilé joga na retranca e quem entra em campo para salvar a resenha — mais uma vez — são o frango, o suíno e a boa e velha linguiça.
Inflação
A inflação da grelha é o resultado exato de uma engrenagem que envolve o fim do ciclo de descarte de matrizes no campo e a fome voraz do mercado internacional por proteína dolarizada. Para o brasileiro médio, torcer pelo hexa virou, antes de tudo, um exercício de engenharia orçamentária.
Para entender o sumiço dos cortes nobres das mesas brasileiras em dias de jogo, é preciso olhar para dentro da porteira. O mercado pecuário vive sob a ditadura do chamado “ciclo do boi”, uma gangorra biológica e econômica que dita a oferta de carne a cada ciclo de três a quatro anos.
Até muito recentemente, o país viveu uma fase de liquidação forçada: o preço do bezerro desabou, o criador perdeu a margem e a saída foi mandar matrizes (as vacas produtoras) direto para o gancho do frigorífico. O resultado imediato dessa supersafra artificial foi uma carne momentaneamente mais barata no balcão e uma falsa sensação de fartura.
Acontece que a conta do ciclo sempre chega. A matança de fêmeas ontem significa menos bezerros nascendo hoje, consequentemente, um apagão de boi gordo pronto para o abate agora.
Com a oferta encolhendo, a arroba física reage no mercado e o repasse para o varejo é imediato. O preço sobe de elevador, impulsionado por um fator puramente estrutural e sazonal.
Exportações recorde
A essa equação doméstica somam-se as exportações brasileiras que operam em níveis recordes.
Para a indústria frigorífica, atender à demanda aquecida da Ásia e dos novos mercados abertos no exterior — recebendo em dólares ou euros — é infinitamente mais atraente do que disputar o minguado orçamento do trabalhador brasileiro.
O resultado é uma espécie de “sequestro” da oferta de carne que vai garantir o saldo da balança comercial lá fora, enquanto o mercado interno herda as margens espremidas.
O açougueiro do bairro não é o vilão da história; ele é apenas o mensageiro de um mercado globalizado que precifica a proteína vermelha como ativo escasso.
No final das contas, o churrasco em dia de jogo da Seleção virou um retrato escancarado das distorções da nossa própria economia.
Enquanto Brasília se esmera em discursos ufanistas sobre o poder do agronegócio e o recorde das exportações, o cidadão comum descobre, na fila do caixa, que o sucesso da balança comercial não cabe no seu prato.
Resta ao torcedor brasileiro aceitar que, na atual conjuntura, o boi gordo joga no mercado internacional, e nós, na arquibancada do consumo interno, assistimos ao espetáculo com o espeto vazio e o bolso espremido.
*Guto Gioielli é analista de investimentos (CNPI) e fundador do Portal das Commodities.
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