Pequenos tiranos, até prova em contrário
“Não se pode permitir a volta de censura sob qualquer argumento no Brasil, mas vejo isso como uma situação excepcionalíssima”, disse a ministra Cármen Lúcia
A atualíssima ficção científica 1984 foi publicada em 1949, por George Orwell, no Reino Unido, mas poderia ser renomeada como 2025 e publicada por qualquer um dos ministros da Suprema Corte, hoje ou amanhã, no Brasil. O gênero continuaria o mesmo: ficção científica.
Na obra original, em inglês, Winston Smith é funcionário do Ministério da Verdade de Oceania, um dos três superestados (os outros são Eurásia e Lestásia). Smith já não é um indivíduo: é um funcionário. Sua vida é esquadrinhada. Seus gestos são filmados. Seus impulsos são antecipados.
Ele toma cuidado com o que pensa e, principalmente, com o que diz. Já não se arrisca no idioma natural e imperfeito criado pelas comunidades humanas ao longo da histórica, mas é fluente em uma língua feita para dizer as coisas que o Big Brother quer, do jeito que ele quer, no tom que ele quer.
Em Oceania, no vocabulário da newspeak, novilíngua ou novafala, há menos palavras para serem usadas e, por isso, muito menos confusões sobre o que é permitido dizer. O sentido de algumas delas foi revisto e devidamente corrigido, para evitar o risco de se cometer qualquer tipo de engano oficial.
Se a linguagem pode ser reformada, estatizada e moralmente ajustada, o pensamento também o será. Precisamos urgentemente reaprender a “duplipensar” (doublethink) e a “bempensar” (goodthink), para que não cometamos “crimes de pensamento” (thoughtcrime).
Já na obra revista e atualizada, em juridiquês-brasileiro, a “censura é proibida constitucionalmente, é proibida eticamente, é proibida moralmente, é proibida eu diria até espiritualmente. Mas não [se] pode, também, permitir que nós estejamos numa ágora [praça pública] em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. Soberano é o Brasil, soberano é o Direito brasileiro”.
Se entendi bem o enredo do romance 2025, somos funcionários de um dos três superestados existentes.
A censura é proibida em qualquer situação, menos em uma “situação excepcionalíssima”.
A “ágora” ou praça é pública, mas não deve ser ocupada pelo público nem ser palco de debates.
Os 213 milhões de cidadãos brasileiros são pequenos tiranos, mas precisam ser protegidos.
Precisamos tomar cuidado com o que pensamos, falamos e escrevemos, para que o Brasil soberano e o Direito soberano não precisem tomar cuidado conosco.
Entendi, como Winston Smith um dia entendeu, que guerra é paz, ignorância é força, liberdade é escravidão.
Entendi que sou um criminoso, até que consiga provar o contrário.
Leia também: Cármen Lúcia fala em “213 milhões de pequenos tiranos” para justificar censura
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Comentários (3)
Liana
27.06.2025 15:51213 milhões de tiranos expulsos deste Brasil. Restou esvaziado.
Carlos Augusto Lins Brito Da Silva
27.06.2025 12:11Show. Coitados de nós “pequenos tiranos soberanos” tendo que obedecer “cegamente” aos 11 baluartes da guardar “excepcionalíssima” da nossa “Constituição”, já fragilizada e em processo de destruição.
ANDRÉ MOURA MOREIRA
27.06.2025 11:44👏👏👏👏