O último capítulo da Lava Jato

21.03.2026

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O Antagonista

O último capítulo da Lava Jato

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Rodolfo Borges
4 minutos de leitura 21.03.2026 10:18 comentários
Análise

O último capítulo da Lava Jato

Migração do senador para o PL de Valdemar fratura símbolo criado como juiz, mas o posiciona enfim como ator relevante na política partidária

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Rodolfo Borges
4 minutos de leitura 21.03.2026 10:18 comentários 2
O último capítulo da Lava Jato
Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O senador Sergio Moro anunciou na quarta-feira, 17, a troca do União Brasil pelo PL. Para a maioria dos políticos, a mudança de um partido para o outro seria mera formalidade.

Mas o ex-juiz da Operação Lava Jato construiu sua imagem fora da política e contra os vícios do mundo político, de cujas contradições ele passa a fazer parte definitivamente agora.

Moro já carrega o peso das contradições inerente à política brasileira desde que lançou sua pré-candidatura à Presidência, em 2022. Para concorrer a qualquer cargo público, é preciso se filiar a um partido, e praticamente todos eles já carregam um passivo criminal ou moral considerável.

Leia mais: Os bastidores da filiação de Moro ao PL de Jair Bolsonaro

Contradições

A alternativa da pureza seria criar o próprio partido, como fez o MBL ao erguer o Missão, num processo que levou mais de 10 anos para acontecer. Moro optou pelo caminho mais curto.

O ex-juiz passou pelo Podemos antes de conseguir se candidatar ao Senado pelo União Brasil, mas teve de se contentar com a eleição no Paraná, depois de ser proibido de concorrer por São Paulo.

O mundo político sempre foi resistente ao homem que virou símbolo de combate à corrupção e que quase implodiu o governo Jair Bolsonaro ao tomar uma atitude drástica por questão de princípio.

Quando deixou o Ministério da Justiça acusando tentativa de interferência indevida na Polícia Federal, Moro reforçou a imagem de rigidez e independência, o que semeou o terreno para voos mais altos. Mas a política é bem mais complexa do que isso, especialmente a brasileira.

Bolsonarismo

O cargo de senador só foi conquistado após uma reaproximação com o bolsonarimo, e Moro participou de outro episódio bem desgastante desde então: o voto secreto na sabatina de Flávio Dino para a cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na época, o ex-juiz enfrentava o risco de perder o mandato, o que o levou a fazer gestos não apenas em relação a Dino, mas também Gilmar Mendes, que se estabeleceu como um dos maiores críticos da Lava Jato e admitiu publicamente diversas vezes ter trabalhando contra a operação no STF.

O outro constrangimento para Moro ao se unir ao PL já foi também o da própria família Bolsonaro: o partido é comandado por Valdemar Costa Neto, um dos condenados pelo esquema do mensalão.

Último capítulo

Essa troca de partido marca um fim simbólico da Lava Jato, que entra para a história em seu último capítulo como uma tentativa — provavelmente a maior delas — de corrigir a política brasileira pelo lado de fora, o que agora, em meio ao escândalo do Banco Master, soa como ingenuidade.

Moro e Deltan Dallagnol, ex-chefe da força-tarefa da Lava Jato, entraram para a política com a expectativa e a promessa de seguir o trabalho da operação no meio dos políticos.

Deltan teve o mandato de deputado federal cassado numa decisão com gosto de vingança do sistema. Moro conseguiu resistir no cargo de senador, com sequelas, e entrega agora a última porção de seu capital político de ex-juiz para tentar não apenas seguir no jogo, mas avançar em influência, tornando-se governador do Paraná e sabe-se lá o que depois.

O que restou

Apesar das anulações, não se pode dizer que a Lava Jato tenha sido um fracasso. A operação revelou, mais do que qualquer outra grande operação derrubada, como Castelo de Areia ou Satiagraha, uma lógica corrupta de funcionamento das instituições brasileiras.

O desmonte da operação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) não tem o condão de apagar o que foi revelado, e hoje o tribunal sofre uma crise moral e de legitimidade como consequência de ter tomado o lado de políticos e empresários que admitiram participar de corrupção para aliviar penas.

Talvez seja demais e também ingênuo — exigir de um homem público que se anule para se restringir a um símbolo. O sindicalista Lula, que hoje só veste grife, passou pelo mesmo processo. Só o tempo vai dizer se o preço pago por Moro para seguir na vida pública compensou. 

Leia mais: Sergio Moro cospe no passado e em quem nele ainda confiava

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Rodolfo Borges

Rodolfo Borges é jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). Trabalhou em veículos como Correio Braziliense, Istoé Dinheiro, portal R7 e El País Brasil.

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Comentários (2)

Carlos

21.03.2026 12:00

Não existe fim simbólico. A LJ foi sabotada pelos criminosos que foram punidos. Discordo da ida para o PL, mas é comportamento típico de agente político buscando maior espaço.


Rosa

21.03.2026 10:47

Muito bem explicado. Concordo.


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