O raio não foi divino, nem a caminhada
Misturar religião com política sempre foi imprudente, sob qualquer análise
Particularmente, jamais comemoro o sofrimento alheio nem debocho de tragédias, ainda que, em determinados casos, nenhuma pena ou empatia me acometam, por conta dos meus sentimentos em relação aos atingidos. Por mais que eu não goste de alguém e não me importe com seus infortúnios – ou fortúnios -, não lhe desejo mal. Ou melhor, posso até desejar, mas não vibro se e quando de fato acontece.
Tampouco julgo e condeno quem assim o faz. Sou um admirador do ser humano – como diz Al Pacino, no brilhante papel do capiroto em O Advogado do Diabo (1997), “I am a fan of man” – com seus acertos e imperfeições. Não sou juiz nem o deus da moral, para atirar a primeira pedra. Se tem gente feliz, comemorando o raio que caiu sobre os bolsonaristas em Brasília, domingo, 25, que se acertem com suas escolhas e consciências.
Mas há um fato a ser abordado: se Deus motivou a peregrinação política-religiosa do bezerro de ouro Nikolas Ferreira, segundo o próprio e outros oportunistas, Ele também enviou a descarga elétrica que feriu os fiéis. Não dá para invocar o Divino para uma coisa e, simplesmente, desconsiderá-lo para outra. Se “Deus é bom o tempo inteiro”, segundo acreditam, então que se compreenda o ocorrido à luz da mesma crença.
Questão de coerência
Sou judeu não praticante, mas me considero, antes de um agnóstico convicto, multirreligioso, pois sempre estudei em escolas fransciscanas e minha mãe seguia o espiritismo. Assim, se meu sangue e minhas raízes são hebreus e eu tenho forte identificação e ligação com o judaísmo (como etnia), de igual sorte conheço as orações católicas. Para mim, todas as religiões são válidas e merecem o máximo respeito.
A despeito do disclaimer acima, até porque já me apresentei como agnóstico convicto, penso que o mau uso da fé é um verdadeiro sacrilégio e ato de extrema falta de caráter e compaixão. Quem usa a fé alheia para ganhar dinheiro, obter poder, se eleger, enfim, corrompe o princípio de qualquer credo. Nikolas Ferreira e tantos outros são exemplos disso. Falam em nome de Deus, mas atuam em nome e por si mesmos.
Se a caminhada entre Paracatu e Brasília e a manifestação de domingo foram divinas, então o raio também foi divino. Mas se a caminhada e a manifestação foram apenas instrumentos humanos de propaganda política e obtenção de poder, então o raio foi mero fenômeno da natureza. Misturar religião com política sempre foi imprudente, sob qualquer análise. Mas, uma vez misturadas, que assim seja. Amém!
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Comentários (1)
Luis Eduardo R. Caracik
26.01.2026 09:18Como na piada do golfista que levou a freira para que esta lhe servisse como caddie, depois do raio deve ter havido um vozeirão celestial ecoando: -P. Q. P. Errei!