O irresistível freak show de Jair Bolsonaro
Alexandre de Moraes é o vilão ideal do bolsonarismo: pelos motivos certos e errados
Nos últimos dias, quisesse ou não quisesse, o Brasil foi obrigado a ver Jair Bolsonaro. Bolsonaro andando, Bolsonaro deitado. Bolsonaro comendo, Bolsonaro sem apetite. Em trajes de seleção brasileira, em trajes de vestiário. Sem meias, com meias. Vimos a cicatriz na barriga. Vimos a barriga com faixa e sem faixa. Bolsonaro otimista. Bolsonaro pessimista. Bolsonaro rezando. Bolsonaro sendo rezado. Bolsonaro acenando para os que acenavam de volta. Bolsonaro tendo os cabelos despenteados, Bolsonaro tendo os cabelos penteados. Só faltava mesmo ver Bolsonaro sendo intimado. Vimos.
Que mal há nisso? Se ele transforma sua doença em gancho narrativo para fins eleitorais e messiânicos, quem sou eu para mudar de canal ou de religião. Bolsonaro não foi desrespeitado em seu repouso de convalescente. Ele é quem desrespeitou a oficiala de justiça que teve a dsgraçada missão de citá-lo durante o bizarro programa de auditório no hospital. Rodolfo Borges arriscou uma hipótese: Bolsonaro soube dançar no palco que Alexandre de Moraes montou.
Não discordo, mas replico: por acaso, a essa altura, faz alguma diferença? Faz sentido esperar dessas figuras, de todas elas, a liturgia do cargo ou o respeito à função? Não acredito que faça. Depois da desarticulação da Lava Jato, da irresponsabilidade na condução das medidas sanitárias e do desprezo às vítimas da pandemia, quem ainda está com Bolsonaro, estará até o fim, com ou sem a providencial ajuda de Alexandre de Moraes fazendo as vezes de (trocadilho involuntário) antagonista.
O bolsonarismo basta a si mesmo, se alimenta dos próprios restos, se reproduz no ambiente úmido das fake news, da vitimização heroica e do heroísmo vitimista. Não há um programa, uma agenda, um projeto. O bolsonarismo é uma espécie de identitarismo, mais tribal que propriamente ideológico, em que o senso de pertencimento importa mais que a capacidade de entendimento. É a legitimação de certos valores e preconceitos, a justificação de certas disposições e delírios. É um freak show quase irresistível. Eu me divirto bastante, quando ninguém está olhando.
Leia também: Surreal: Bolsonaro transformou UTI em divã de psicanálise
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (4)
Fabio B
24.04.2025 19:18O mais repulsivo não é nem o bolsonarismo raiz, pois esse já sabemos que é um espetáculo grotesco, irracional, movido a ressentimento e culto de personalidade. O que realmente embrulha o estômago são os “Novos Bolsonaristas”. Esses oportunistas de última hora, que até ontem reconheciam e chamavam o Bolsonaro de tosco, golpista, lunático, agora surgem vestindo a camisa amarela e dizendo que “talvez tenham sido duros demais”. É patético. Uma tentativa torpe de capturar um eleitorado que continua fiel, mesmo com o Mito deitado no hospital posando para foto como se fosse parte de um ensaio da Caras do Apocalipse. Esses neoconversos não acreditam em nada, não seguem ninguém, só farejam o cheiro do gado e correm para o curral, esperando herdar o rebanho. E o mais triste é que funciona. O brasileiro médio engole esse teatro com a empolgação de quem vê reprise de novela. O cinismo desses adesistas de última hora é só superado pela credulidade de quem os aplaude. Uma piada trágica com plateia grande.
Osmair Mendonça
24.04.2025 18:59Bolsonaro se aproveitou muito bem da lava jato e o antipetismo. Contudo, foi responsável em parte, pela ressurreição do PT patrocinado pelo vergonhoso STF. Eles se dependem porque, de fato, tem mais fanatismo que racionalidade. Típico de países de quinta.
Márcio Roberto Jorcovix
24.04.2025 18:57O problema aqui é que o Bolsonarista não tem mais argumentos, portanto, não há Como contra argumentar se não Há argumento. O Bolsonarista simplesmente é faça Bolsonaro o que fizer. Todos continuam se escondendo atrás das mazelas de Lula no mundo das redes sociais buscando motivos para justificar a si mesmos a opção de ser Bolsonarista. Filosofei demais mas é a verdade
Luis Eduardo Rezende Caracik
24.04.2025 18:09Gustavo, tudo muito bem colocado, e de maneira criativa, mas discordo em uma única coisa. Não acho nada disso divertido. Na verdade acho uma verdadeira desgraça, e o que machuca mais ainda, é ver que a tribo bolsonarista perdeu totalmente o contato com a realidade, e é uma parcela considerável da população sendo "educada" para o ódio cego e sem qualquer compromisso com o futuro do Brasil. Um contingente que vai gerar muito perigo e dissabores no futuro.