O fantasma de Olavo de Carvalho
A pretensão de desenvolver um campo cultural capaz de sustentar uma plataforma política se restringe hoje à troca de xingamentos e apelidos
Em meio à disputa por protagonismo e troca de xingamentos no campo bolsonarista nas redes sociais, surge, invariavelmente, uma citação de Olavo de Carvalho em tom de xeque-mate.
Não são seus livros, contudo, o que os apoiadores de Jair Bolsonaro mencionam, mas as postagens do filósofo nessas mesmas redes sociais e trechos de vídeo de suas entrevistas e declarações.
A presença de Olavo no debate público das redes quatro anos após sua morte atesta, ao mesmo tempo, seu sucesso, por ter se estabelecido como intelectual público popular, e seu fracasso, porque as sementes de reflexão plantadas em seus cursos parecem florescer apenas em sua pior faceta, por meio de ofensas, xingamentos e apelidos defendidos como estratégia por ele mesmo.
“Eu uso esses palavrões porque são necessários. São necessários no contexto brasileiro para demolir essa linguagem polida que é uma camisa-de-força que prende as pessoas, obrigando-as a respeitar o que não merece respeito”, justificou-se, mais de uma vez, o pensador.
Seif x Nikolas
Na sexta-feira, 10, o senador Jorge Seif (PL-SC) usou desse expediente para desqualificar o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), encarado como ameaça à hegemonia da família Bolsonaro, da forma mais vulgar, e apagou a postagem no X minutos depois.
Seif, que trava com Nikolas disputa pela paternidade da sessão do Congresso Nacional em que provavelmente será derrubado o veto de Lula ao PL da Dosimetria, recuperou um post antigo no qual o deputado rejeitava qualquer alternativa à anistia geral aos condenados pelo 8 de janeiro — os apoiadores de Nikolas também recuperaram declaração de Seif fazendo o mesmo no passado.
A mensagem do senador dizia o seguinte: “Tomem aí[,] putinhas do Nikolas. Agora fechem o cu, que o fedor de merda com esperma tá chegando até aqui”. Seif marcou no post Rodrigo Constantino e Silvio Grimaldo, dois dos críticos das estratégias dos filhos de Bolsonaro.
Olavo não gostava de ser cobrado pelas atitudes daqueles que alegavam tê-lo como norte — e boa parte dos políticos que o mencionam de fato nunca sequer abriu um livro, de qualquer que seja o autor —, mas é inegável que o filósofo se prestou ao papel de “ideólogo do bolsonarismo” que tanto rejeitava — e a utilização de suas declarações em meio a esse quebra-pau atesta isso.
“As palavras dos moribundos”
O post de Seif dá a dimensão da distância entre a pretensão de desenvolver um campo cultural capaz de sustentar uma plataforma política e sua manifestação vulgarizada na realidade.
O olavismo pegou carona e, ao mesmo tempo, foi atropelado pelo bolsonarismo.
As citações póstumas de Olavo têm o caráter irônico e ao mesmo tempo trágico de quase tudo que ocorre no Brasil. Ao comentar A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia, de Christopher Lasch, em um dos artigos reunidos em O Imbecil Coletivo, o autor diz o seguinte:
“As palavras dos moribundos têm um peso que as outras não têm. As de Christopher Lasch só correm o risco de ser ouvidas com leviandade porque como todas as do autor, um ensaísta highbrow lido sobretudo por universitários se dirigem àquela mesma faixa de público sobre a qual lançam uma pesada quota de responsabilidade sobre o estado de coisas no mundo.”
As palavras de Olavo não são citadas hoje na imprensa e não se dirigem exatamente a universitários, mas são lançadas com essa mesma quota de responsabilidade sobre o estado de coisas no Brasil.
“Só existe o Bolsonaro”
“Todos os que subiram ao poder na esteira do Bolsonaro, aprendam enquanto é tempo: fiquem do lado dele ou serão odiados pelo povo tanto quanto o são os comunopetistas. Não tenham a ilusão de representar ‘a direita’. No Brasil não existe direita nenhuma. Só existe o Bolsonaro”, diz uma das mensagens de Olavo que circulam em meio aos ataques trocados nas rede sociais.
Mas há mensagens para todos os gostos, inclusive no sentido exatamente oposto, e elas são sacadas por cada um dos lados da batalha bolsonarista ao sabor da conveniência. Uma das mais proféticas, bem no espírito com que foi escrito A Nova Era e a Revolução Cultural, diz o seguinte:
“Subir na vida e, uma vez lá em cima, livrar-se dos que o ajudaram na escalada. O Bolsonaro aprendeu isso com Maquiavel e vai terminar como Maquiavel terminou: vivendo da caridade de seus inimigos.”
Leia mais: O bolsonarismo que perdoa
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Comentários (1)
Daniela_RS
12.04.2026 13:23Ótimo artigo! O fato de Olavo de Carvalho ser lembrado dessa forma e somente por essa gente mal educada e sem nível intelectual diz muito sobre a (des) qualificação do próprio Olavo.