O “desabafo” de Jair Bolsonaro
Em depoimento ao STF, ex-presidente tentou fazer reunião com chefes militares parecer música de Reginaldo Rossi
Jair Bolsonaro (ao centro na foto), em seu depoimento no banco dos réus ao Supremo Tribunal Federal (STF), realizado na terça-feira, 10 de junho, fez o que deixou de fazer em 2022: chamou de “malucos” os defensores de intervenção militar e disse que a solução “é internar quem tivesse com uma intenção dessa natureza”.
Ou seja: para tentar escapar da condenação à cadeia ou mesmo reduzir sua potencial pena, o ex-presidente criticou, com três anos de atraso, milhares de seus apoiadores que se manifestaram em estradas e portas de quartéis, jogando os autoproclamados “patriotas” aos leões do Poder Judiciário, ou aos psiquiatras dos manicômios.
Indagado por Alexandre de Moraes, porém, se recorreu aos chefes militares com propostas de “Estado de sítio” e “Estado de defesa” em razão da impossibilidade de recurso eleitoral, Bolsonaro respondeu:
“Sim, senhor.”
Pelo raciocínio do ex-presidente, portanto, ele próprio é um “maluco” que precisa ser internado, o que beira a alegação de insanidade.
A resposta ao ministro confirmou declaração anterior de Bolsonaro de que “só foi conversado esses outros [sic] hipóteses constitucionais tendo em vista o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] ter fechado as portas pra gente com aquela multa lá, e espero que um dia Vossa Excelência possa reconsiderar aquela multa, e volte [o dinheiro] para o partido [PL], porque está fazendo muita falta pra gente aqueles R$ 22 milhões”.
Litigância de má-fé
A referida multa foi imposta por Moraes, então presidente do TSE, e confirmada pelo plenário da Corte em dezembro de 2022, por litigância de má-fé do PL em petição para verificação das urnas do segundo turno presidencial, ou seja, somente da corrida perdida por Bolsonaro, já que, no primeiro turno, pelo mesmo sistema eletrônico, tanto ele havia se classificado quanto o partido havia eleito a maior bancada de deputados da Câmara.
Bolsonaro, claro, tentou minimizar a natureza, o teor e o objetivo dos encontros com os então comandantes das Forças Armadas como um “desabafo”, alegando que “militares, nas horas boas e ruins, estão contigo”, como se o general, o almirante e o tenente brigadeiro fossem o seu próprio “Garçom” da célebre música de Reginaldo Rossi, a quem ele apelasse: “Meu caso é mais um, é banal / mas preste atenção por favor…”
O ex-presidente alegou também que os “considerandos”, ou seja, as pretensas justificativas da minuta de decreto para melar o resultado das eleições, foram exibidos em uma tela “de forma bastante rápida”, porque “não havia, da nossa parte, uma gana”, “não existia essa vontade”, “o sentimento de todo mundo é que não tínhamos mais nada o que fazer”, “então tínhamos que entubar o resultado das eleições”.
Pacificador?
É curioso como Bolsonaro nega as registradas intenções das atitudes que ele próprio admite. Os atos presidenciais de reunir os chefes militares e de apresentar e discutir hipóteses de golpe de Estado travestidas de medidas constitucionais, por insatisfação com a derrota nas urnas e com decisões subsequentes da Justiça Eleitoral, seriam, assim, apenas uma espécie de porre, durante o qual Bolsonaro propôs ações alheias à sua própria gana, à sua própria vontade, como se estivesse cantando: general, “eu sei que eu estou enchendo o saco / mas todo bebum fica chato / valente e tem toda a razão”.
O ex-presidente, sem sequer corar, ainda tentou posar, a posteriori, de pacificador:
“Eu pacifiquei o máximo que pude ao longo dos dois meses de transição. Não houve ida pra confronto, não houve estímulo da minha parte a fazer nada de errado. Obviamente, perdi a eleição, não convoquei ninguém pra fazer protesto, fazer qualquer coisa ilegal ou até mesmo legal. Eu sempre fiquei recluso lá no Palácio do Alvorada esperando, que parece que não chegava nunca esse dia, pra eu cuidar da minha vida. E resolvi partir pros Estados Unidos e deixar aqui o Brasil na mão do vice por um dia. E daí, como aconteceu, o presidente eleito assumiu e começou a tocar o Brasil.”
Em 9 de dezembro de 2022, no entanto, durante o período de transição, Bolsonaro discursou a apoiadores em frente ao Palácio, mantendo acesa a esperança de reviravolta, instigando a pressão popular sobre as Forças Armadas e posando de injustiçado, sem reconhecer a derrota eleitoral:
“Sempre disse, ao longo desses quatro anos, que as Forças Armadas são o último obstáculo para o socialismo… As decisões, quando são exclusivamente nossas, são menos difíceis e menos dolorosas. Mas quando elas passam por outros setores da sociedade, elas são mais difíceis e devem ser trabalhadas… Todos nós sabemos o que aconteceu ao longo desses quatro anos, ao longo do período eleitoral e o que foi anunciado pelo TSE… Nós temos assistido, dia após dia, absurdos acontecerem aqui em nossa pátria… Quem decide o meu futuro e para onde eu vou são vocês. Quem decide para onde vai as Forças Armadas são vocês…”
Enquanto o então presidente transmitia a apoiadores essa ideia falsa de que o rumo das Forças Armadas seria decidido por eles, seu vice na chapa derrotada, general Walter Braga Netto, mandava o capitão reformado Ailton Barros infernizar a vida da família do então comandante da Aeronáutica e oferecer a cabeça do então comandante do Exército aos leões, já que ambos se recusavam a aderir ao plano apresentado nas minutas.
Gana e vontade
Bolsonaro, portanto, não só teve gana e vontade, como tentou buscar apoio político e militar para melar o resultado eleitoral, mas simplesmente não conseguiu. Foi em razão disso, e com medo de ser preso após o encerramento de seu mandato, que ele voou para a Flórida em 30 de dezembro de 2022, não sem antes explicar ele próprio a apoiadores, em live de despedida, que buscou “uma saída”, “uma alternativa”, mas que, para “certa medida”, “tem que ter apoio” de “outras instituições”.
A despeito de diversas condutas de ministros do STF merecedoras de críticas, esses são os fatos objetivos, verificáveis, documentados e, em alguns pontos, até confessados, a respeito de episódios cruciais para o julgamento de Bolsonaro pelo Supremo e para o julgamento político e moral do ex-presidente pela sociedade brasileira.
Quando a derrota deixa em pedaços o suposto coração de um político, talvez seja menos pior para o país que ele só mate a tristeza em mesa de bar.
Leia mais: O que restou de Bolsonaro?
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Comentários (5)
Um_velho_na_janela
12.06.2025 10:10O que eu não consigo entender é como ainda se fala em provas sobre fatos e comportamentos exaustivamente mostrados e divulgados pela totalidade da mídia na época dos acontecimentos. Ou se trataria de um exercício de avaliação de intenções e não de ações?
Fabio B
12.06.2025 10:02Ana Maria, parece que você não compreende bem o que é o dispositivo da delação premiada. Ele só é aceito e homologado quando há comprovação dos fatos relatados, do contrário, seria fácil demais fabricar acusações. Além disso, não se trata de qualquer informação: precisa ser relevante e consistente. Também é evidente que você não acompanhou as demais provas materiais que vieram à tona: trocas de mensagens, documentos e até vídeos revelando toda a estrutura por trás da tentativa de golpe, conduzida de forma desastrosa pelo grupo bolsonarista. O Xandão não é herói, mas o seu “mito” também está longe de ser um santo injustiçado. Ele só não teve sucesso porque é intelectualmente limitado, preguiçoso e, acima de tudo, covarde.
VITOR CARLOS MARCATI
11.06.2025 18:51O cagão quando a água bate na bunda joga até a mãe aos leões Parafraseando seus superiores militares é um bunda suja mesmo
Ana Maria
11.06.2025 18:01A verdade que a unica coisa que eles tem e a delação do Mauro Cid que nao apresenta provas de nada.
Roberval
11.06.2025 15:57São tantas narrativas! Normal.