O Centrão quer mudar tudo, para que tudo permaneça como está
Articula-se uma reforma do sistema de votação, favorecendo o jeito de fazer política de partidos como PP e União Brasil
As discussões sobre reforma política vão e vêm há uns vinte anos – especialmente a que diz respeito ao fim do sistema proporcional de votação.
Meio que de repente, pode ser que a reforma aconteça antes do final de 2026.
A razão é simples: o resultado das eleições parlamentares fez soar o alarme no Centrão.
Acionou-se a lógica de Tancredi Falconeri, personagem do romance O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa: “Se quisermos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude.”
Perda de assentos
Neste ano, quase todos os partidos do Centrão perderam assentos na Câmara dos Deputados: União Brasil (-6); PP (-5); PSD (-5); MDB (-2); e Republicanos (-1).
Uma das causas da hecatombe foi o desempenho de candidatos como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP).
Ambos receberam mais de 3 milhões de votos nos respectivos estados. No sistema proporcional, isso aumenta o capital político do partido ao qual pertencem.
Outros políticos do PL foram carregados para a Câmara graças aos votos das duas jovens estrelas. A legenda deu um salto extraordinário, de 99 deputados na legislatura atual para 121 na que começa em 2027.
O novo puxador de voto
Mas candidato puxador de voto não é novidade. Por que o incômodo agora?
Uma hipótese vem da observação do caso de Tiririca (PSD-SP), que desempenhou esse papel em eleições passadas e desta vez não conseguiu se reeleger.
Com perfil semelhante, o cantor e influenciador Caneta Azul (Avante-SP) também ficou pelo caminho. Com base em eleições anteriores, parecia uma boa aposta para puxar votos.
Isso sugere que a era dos influenciadores-celebridades pode estar dando lugar à era dos influenciadores ideológicos. E os partidos do Centrão não foram talhados para acomodar gente desse feitio.
Uma evidência adicional vem da esquerda.
Embora não na mesma proporção que o PL, que se transformou na nave-mãe da direita, o PT também cresceu na Câmara. Saltou dos 65 deputados atuais para 70.
Da mesma forma, Erika Hilton (Psol-SP) ultrapassou a barreira de 1,5 milhão de votos com sua defesa estridente de pautas identitárias.
Distrital misto
Dito de outra maneira, o eleitorado parece estar mais inclinado a escolher maciçamente, também para o Congresso, candidatos claramente identificados com um dos pólos ideológicos. Isso fortalece as suas legendas no sistema proporcional.
O remédio para o Centrão é mudar o sistema político, de modo a reduzir a influência de figuras como Nikolas Ferreira e Erika Hilton.
O projeto com maiores chances de avançar – existem articulações para que seja aprovado em novembro, pouco depois do segundo turno das eleições – institui o voto distrital misto.
Se o voto proporcional distribui cadeiras entre partidos e federações de acordo com a proporção de votos que receberam (por isso políticos com muitos votos acabam influindo no resultado final), o voto distrital misto combina essa lógica com a do voto majoritário dentro de um território delimitado – o distrito.
Em alguns países que adotam esse modelo, como a Alemanha, o eleitor dispõe de dois votos: um para escolher o representante de seu distrito e outro para definir a força de cada legenda no Parlamento.
A adoção desse sistema no Brasil continuaria permitindo a eleição de candidatos “de opinião”. Mas também levaria à Câmara aqueles mais voltados a atender demandas locais – por exemplo, despejando dinheiro de emendas parlamentares na sua região de origem.
Os interesses do Centrão
O Centrão passou os últimos anos aperfeiçoando a arte (ou magia negra) de aumentar o valor das emendas e abocanhá-las. Já havia sinais de que o mecanismo não estava surtindo efeito na intensidade desejada. As eleições deste ano parecem tê-los confirmado.
Implementar uma reforma política que beneficie quem irriga o chão com emendas é um modo de fazer render o investimento anterior do Centrão.
Todo sistema de votação tem vantagens e desvantagens. Nas próximas semanas, os benefícios do distrital – como aproximar o candidato do seu eleitorado – deverão ser exaltados.
É importante ouvir com atenção, pois os sistemas tendem de fato a produzir resultados eleitorais diferentes.
Mas também é importante saber que os interesses dos partidos do Centrão, e não os interesses do eleitorado, serão o motor oculto do debate.
Quer uma prova? O projeto que tem maior chance de ser aprovado no próximo mês é o PL 9.212. Ele chegou à Câmara em 2017, depois de aprovado no Senado, e ficou adormecido desde então.
De repente, lembraram-se dele.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)