Mundial da hipocrisia
Treinadores, jogadores e alguns diretores europeus criticam o excesso de jogos, mas não consideram uma questão fundamental
Bastou o Porto empatar com o Palmeiras em sua estreia na Copa do Mundo de Clubes, para que o presidente da agremiação portuguesa, André Villas-Boas, criticasse o formato e o período em que a competição é realizada. Indignado, reclamou que seu time (que seria eliminado na primeira fase) estava fazendo a quinquagésima partida em uma temporada completa. O Palmeiras, por exemplo, disputava seu trigésimo sexto jogo – no meio da temporada.
Qualquer clube brasileiro de ponta, que dispute o campeonato nacional e vá às fases finais dos torneios sul-americanos, joga pelo menos vinte partidas a mais que os europeus. Considerando as viagens de norte a sul, muito mais longas, e as condições estruturais, muito piores (gramados, mudança brusca de clima, altitude), chega a ser engraçado que um grande da Europa se comporte como o pequeno da situação. Antes que o leitor esbraveje, não defendo que deveríamos jogar mais jogos, mas que as condições sejam equivalentes para todos.
O meia brasileiro Raphinha, do Barcelona, que sequer participa do novo Mundial, também se manifestou sobre o assunto. Antecipando temporadas futuras em que disputará o torneio, declarou que “é muito ruim abrir mão das férias para jogar algo que tu é obrigado. Em nenhum momento perguntaram para os jogadores se eles queriam. Resta nós acatar. Ter que abrir mão das férias para jogar um novo torneio é muito complicado”.
Achei curioso que ele tenha dito que é ruim “jogar algo que tu é obrigado”, como se, enfim, essa não fosse a essência de um contrato e do exercício de uma profissão: ser obrigado.
O ex-treinador alemão Jurgen Klopp, hoje diretor de clubes da Red Bull, esbravejou: “A pior ideia já implementada no futebol. Entendo quem diga que o dinheiro [recebido] para participar é uma loucura. Mas isso não acontece com todos os clubes. […] No ano passado, houve a Copa América e a Eurocopa. Este ano, temos a Copa do Mundo de Clubes e, no ano que vem, temos a Copa do Mundo. Isso significa que não há recuperação real para os jogadores envolvidos, seja física ou mental”.
Muito bem, muitíssimo bem. André Villas-Boas, Raphinha, Jurgen Klopp e muitos outros têm razão. Joga-se muito, treina-se pouco, descansa-se menos. Esportes de alto rendimento exigem preparação de alto rendimento, e isso não pode ser feito com um calendário cada vez mais abarrotado de competições. O nível técnico cai, o número de lesões sobe e o produto se deteriora. Além disso, não há torcedor que aguente pagar por tantos ingressos ou assinaturas de tevê e streaming.
Mas, se os três personagens estão cobertos de razão por um lado, o ex-atacante Karl-Heinz Rummenigge, agora diretor do Bayern de Munique, está soterrado de razão por outro. Ponderando sobre as mesmas críticas, ele deu a pista sobre como lidar com o problema, e sobre quão hipócritas podem ser jogadores e treinadores, mesmo quando dizem verdades – porque não dizem todas as verdades: “Nossos jogadores têm que parar de reclamar. Todas as negociações de contrato que eu acompanho vão sempre em uma direção: valores mais altos, tempos mais extensos, tudo na maior velocidade. E esse dinheiro tem que sair de algum lugar”.
Esse é o ponto. O futebol é um entretenimento rentável, que, de certa maneira, independe das flutuações econômicas do mundo “real”. Até porque, convenhamos, parte considerável do dinheiro dos grandes europeus têm origem obscura e não rastreada, vinda de países, magnatas ou grupos árabes, asiáticos e russos. Nem sempre é um dinheiro que corresponde a transações do mercado da bola. Os jogadores? Não estão nem aí pra isso. A cada ano, a cada temporada, a cada especulação, exigem mais dinheiro, mais tempo, mais comissões para seus agentes.
Esse dinheiro sai de onde? Dos muitos interesses, que eles ignoram e querem ignorar, que estão em jogo. Vamos reduzir número de partidas e também de salários? Vamos limitar temporadas e também comissões? Vamos rastrear o dinheiro e determinar regras mais claras de investimento?
Não?… Ninguém aí para declarar qualquer coisa? Ninguém para ficar chateado com a obrigação de receber milhões por mês?
Foi o que pensei.
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Comentários (1)
Marcia Elizabeth Brunetti
30.06.2025 09:15Realmente é muito sofrimento e um salário incompatível. Kkkkkk