Moraes é uma miragem?
Ministro do STF conduz desde 2022 o processo eleitoral, mesmo depois de ter deixado o TSE, e sua influência não pode ser minimizada
É curioso o incômodo de alguns analistas com a atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça (à esquerda na foto) nas investigações sobre o escândalo do INSS, que acerta em cheio Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e, por tabela, seu pai, e o caso do Banco Master, que tem como potencial prejudicado o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula.
Há quem enxergue nos vazamentos do caso Lulinha a mão de Mendonça e até o compare ao senador Sergio Moro (PL-PR) na época de juiz da Operação Lava Jato.
É de se observar, de fato, a conduta do ministro “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro nesses casos, mas, ao fazê-lo, não se pode fechar os olhos para o que faz desde a eleição de 2022 o ministro Alexandre de Moraes (à direita na foto).
Salta aos olhos a ausência de menções a Moraes nas análises que demonstram preocupação com a conduta de Mendonça.
Fica a impressão, aliás, de que os críticos do ministro indicado por Bolsonaro não estão exatamente preocupados com a eleição, mas com quem pode perdê-la por causa das suspeitas sobre corrupção.
Juiz eleitoreiro
Depois de a Lava Jato influenciar a eleição de 2018, por causa das investigações sobre corrupção que chegaram a tirar Lula da corrida presidencial daquele ano — o petista só entrou na disputa para tentar evitar a prisão —, Moraes é o ministro do STF que mais interferiu nas eleições, de várias formas diferentes, e isso voltou a ocorrer na eleição deste ano.
O relator do infinito inquérito das fake news conduziu com mão de ferro a eleição presidencial de 2022, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dispensando muitas vezes o Ministério Público Eleitoral (MPE). Naquela eleição, o TSE censurou um documentário apenas pelo título.
A atuação protagonista de Moraes alimentou a desconfiança sobre aquele processo eleitoral, que se manifestou de forma mais intensa nas dúvidas sobre as urnas eletrônicas e desembocou no vandalismo do 8 de janeiro de 2023 após semanas de acampamentos em frente a quartéis.
As mensagens publicadas pela Vaza Toga, em 2024, revelaram que o ministro seguiu usando a estrututa do TSE mesmo depois de deixar o tribunal. Naquele mesmo ano, Moraes bloqueou a rede social X durante a eleição municipal, interferindo também nos debates eleitorais.
Autodefesa
Neste ano, o ministro já fez uma menção gratuita à candidatura de Flávio ao despachar sobra o vídeo de Inteligência Artificial de Jair Bolsonaro exibido em convenção do PL, disse que o modelo eleitoral “faliu” e promoveu em sua casa uma reunião entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
O pano de fundo da reunião é a disputa pelas vagas no Senado e a perspectiva do primeiro impeachment de um ministro do STF, que tem ele como alvo preferencial.
Se Mendonça merece atenção neste ano, Moraes merece desde 2022 — ou de 2019, quando começou a relatar o inquérito das fake news —, e quem tolera sua conduta em nome da defesa da democracia ou da República não parece entender que o efeito de suas decisões é o exato oposto disso.
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