Lula, Macron e o paquiderme estatal
Crise francesa mostra o preço de manter despesas públicas que a economia já não consegue sustentar
Os presidentes Lula e Emmanuel Macron se dão muito bem. Quando o francês visitou a Amazônia, em 2024, a afinidade foi tão evidente que a relação passou a ser tratada como um bromance.
Agora surge outra semelhança: ambos enfrentam eleições com altos índices de desaprovação de seus governos.
Entre os fatores que alimentam a insatisfação está o esgotamento de um modelo de Estado grande e assistencialista, que as taxas de crescimento das duas economias não conseguem sustentar.
Apesar das manifestações de rua que tomaram a França nos últimos dias, a situação de Macron poderia até ser descrita como um pouco melhor que a de Lula.
Ele ao menos pode responsabilizar gerações de governantes pela construção do modelo francês, que vem do pós-Segunda Guerra.
Por mais que goste de empurrar responsabilidades para terceiros e reclamar de “heranças malditas”, Lula não dispõe da mesma desculpa.
O modelo brasileiro que agora encontra seus limites tem, em boa medida, a assinatura do PT. O partido foi tutor do paquiderme estatal durante a maior parte do último quarto de século .
A advertência francesa
A França vive uma crise fiscal que começa a adquirir contornos financeiros e políticos perigosos. Sua dívida pública alcançou 119% do PIB, o déficit previsto para este ano é de 5,4% e os juros dos títulos do governo com vencimento em dez anos se aproximaram de 5%, o maior patamar desde 2002.
Os investidores já exigem remuneração superior à cobrada de países como Itália e Grécia, historicamente considerados mais arriscados. O governo francês continua conseguindo financiamento, mas a um custo crescente.
Enquanto o governo tenta conter despesas, estudantes e professores protestam contra a deterioração das escolas. A sociedade exige mais recursos justamente quando o Estado encontra dificuldades crescentes para financiá-los.
O país preserva um sistema previdenciário generoso, com idade de aposentadoria relativamente baixa, enquanto o envelhecimento da população pressiona as contas públicas.
Os compromissos com as gerações mais velhas comprimem o espaço disponível para outras prioridades, entre elas a educação. A resistência política à reforma previdenciária tornou-se parte do problema.
O paralelo brasileiro
O governo Lula talvez argumente que a dívida bruta brasileira chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central, enquanto a francesa alcançou 119% no segundo trimestre, de acordo com o instituto oficial de estatísticas do país.
Diferenças de medição à parte, seria um erro transformar essa distância em motivo de tranquilidade.
O que determina a sustentabilidade da dívida não é apenas seu tamanho, mas a combinação entre crescimento econômico, juros, arrecadação e trajetória das despesas. Uma dívida menor pode se tornar problemática quando seu custo é elevado e não existe perspectiva convincente de estabilização.
O PT não sabe imaginar desenvolvimento que não seja dependente da expansão das despesas públicas, das transferências sociais, dos subsídios e do crédito direcionado.
Essas políticas dependem de uma economia capaz de produzir riqueza suficiente para sustentá-las.
A dificuldade não se restringe aos programas assistenciais. O peso da Previdência, a rigidez orçamentária e o crescimento das despesas obrigatórias reduzem os recursos disponíveis para investimentos e novas prioridades.
Em vez de enfrentar a dureza dos fatos, Lula busca aumentos de arrecadação e soluções de curto prazo, enquanto trata a contenção de despesas como uma ameaça aos mais pobres.
Capacidade de governar
O governo de Macron reconhece a necessidade de ajustar as contas, mas encontra enormes dificuldades para reunir apoio parlamentar e enfrentar a resistência social.
A proximidade das eleições presidenciais de 2027 agrava o impasse. Os principais candidatos apresentam promessas de gastos ou benefícios sem demonstrar convincentemente como pretendem financiá-los.
Lula também enfrenta um Congresso fragmentado, mas seu maior problema é a descrença pessoal na necessidade de conter o crescimento das despesas. Há menos de um mês ele chamou de “babaquice” a ideia de que o governo precisa fazer superávits.
A confiança dos investidores depende dos indicadores econômicos, mas também da percepção de que o governo possui vontade política para corrigir uma trajetória fiscal insustentável.
Quando essa confiança diminui, os juros sobem e o ajuste se torna mais difícil. Quando ela aumenta, acontece o contrário.
Basta ver o que aconteceu nesta semana: a dianteira de Flávio Bolsonaro na votação de primeiro turno derrubou as taxas de juros de longo prazo do Brasil.
A França ainda não quebrou. O Brasil também não está à beira da insolvência. Mas os custos de um modelo fiscal insustentável começam a aparecer muito antes de uma ruptura.
A lição francesa é simples: confiança fiscal depende também da capacidade de governar. E governar significa reconhecer limites e fazer escolhas difíceis antes que os mercados comecem a fazê-las pelo governo.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)