Governo prepara outro remédio paliativo para endividamento recorde

02.11.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Governo prepara outro remédio paliativo para endividamento recorde
avatar
Carlos Graieb
4 minutos de leitura 17.09.2026 11:49 comentários
Análise

Governo prepara outro remédio paliativo para endividamento recorde

A cerca de 15 dias das eleições, ministro anuncia novo programa para quem está com o crédito bloqueado

avatar
Carlos Graieb
4 minutos de leitura 17.09.2026 11:49 comentários 0
Governo prepara outro remédio paliativo para endividamento recorde
O Lula e o ministro da Fazenda, Dário Durigan, durante assinatura da Medida Provisória referente ao Desenrola 2. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O governo Lula prepara um novo programa para retirar brasileiros dos cadastros de inadimplentes.

A iniciativa, revelada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista ao Extra, tem um objetivo defensável — livrar famílias de dívidas antigas que continuam bloqueando seu acesso ao crédito.

Mas ela chega a poucas semanas da eleição e foi concebida para ser levada à campanha, como o próprio Durigan reconhece. O caráter eleitoreiro é difícil de ignorar.

Mais preocupante é a possibilidade de que, ao estimular novamente o crédito sem enfrentar as causas do endividamento, o governo incorra em uma grave irresponsabilidade.

Leia mais: Lula aciona ‘modo desespero’ e aumenta Bolsa Família em 15% às vésperas das eleições

Desenho do programa

A proposta ainda está sendo desenhada. A ideia é reunir dívidas antigas, muitas delas consideradas praticamente irrecuperáveis pelos credores, e submetê-las a um leilão com forte deságio.

Durigan rejeita o rótulo de “Desenrola 3”.

No primeiro Desenrola, o consumidor escolhia num site ofertas de renegociação; no segundo, concentrado em dívidas bancárias, o governo ofereceu garantias aos credores.

Agora, pretende-se eliminar passivos depreciados sem obrigar o devedor a contratar novo financiamento.

Narrativas

Durigan atribui o elevado endividamento observado no Brasil à crise econômica da pandemia. Ele diz que o novo programa permitirá que pessoas hoje empregadas e com renda voltem a ter crédito.

A pandemia, de fato, deixou um pesado legado financeiro. Como discurso político, porém, a explicação é conveniente: empurra a origem do problema para fora do atual governo e obscurece o fato de que, anos depois, o endividamento continua crescendo.

A segunda justificativa merece ainda mais atenção. Recuperar acesso ao crédito é importante. Mas há no argumento o eco de uma velha aposta petista: fazer do crédito e do consumo motores privilegiados do crescimento.

Antes de repetir a receita, seria prudente perguntar se a natureza do problema mudou. É mesmo hora de incentivar famílias já fortemente endividadas a consumir mais a crédito?

O governo finge que não vê

Os sinais recomendam muita cautela. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) divulgada no dia 10 pela CNC mostrou que 82% das famílias estavam endividadas em julho, um número recorde, e 19% comprometiam mais da metade da renda com dívidas.

Um estudo de pesquisadores da UFRJ e da FGV sobre o primeiro Desenrola, por sua vez, encontrou algo ainda mais incômodo. O programa derrubou inicialmente a inadimplência, mas, em 18 meses, ela retornou aos níveis anteriores. O benefício foi menor entre trabalhadores informais, justamente porque muitos utilizam crédito para compensar oscilações da renda.

Há ainda o risco moral. O estudo encontrou evidências de que algumas instituições ampliaram empréstimos diante da perspectiva de renegociações respaldadas pelo governo. Programas sucessivos podem ensinar tanto devedores quanto credores a contar com a próxima rodada de socorro.

Por que o efeito dos programas do governo não dura? Uma hipótese apresentada por pesquisadores do IBRE é que ocorreu uma mudança estrutural no Brasil. Emprego e renda se recuperaram, mas juros elevados, crédito caro e maior comprometimento dos orçamentos mantiveram as famílias vulneráveis. As condições da economia continuam produzindo novas dívidas.

Aposta eleitoreira

Lula chega à reta final da campanha com avaliação negativa elevada. Em algumas pesquisas, já aparece em desvantagem em cenários de segundo turno. O governo procura boas notícias desesperadamete.

Os dois Desenrola mostram que é possível produzir alívio de curto prazo para os milhões de famílias endividadas. Mas a evidência disponível também mostra que os programas são paliativos.

Transformar outra limpeza de dívidas em bandeira eleitoral é mais fácil do que enfrentar as razões pelas quais tanta gente acaba endividada novamente.

Para isso, Lula e seu partido teriam de abandonar ideias fossilizadas sobre a “irrelevância” da dívida pública na saúde da economia, ou sobre o papel fundamental do consumo no desenvolvimento econômico (em detrimento de fatores como produtividade, por exemplo). Não vai acontecer.

Leia mais: Lula merece afundar com o STF

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Tarcísio rebate Boulos: “Divergências não justificam distorcer os fatos”

Tarcísio rebate Boulos: “Divergências não justificam distorcer os fatos”
2

Lulistas boicotam, mas não querem ser boicotados

Lulistas boicotam, mas não querem ser boicotados
3

Fux inclui Saúde e Justiça em debate sobre proibição das bets

Fux inclui Saúde e Justiça em debate sobre proibição das bets
4

Crusoé: Petista quer impor teto ao valor cobrado por bancos por empréstimos

Crusoé: Petista quer impor teto ao valor cobrado por bancos por empréstimos
5

Eduardo Bolsonaro agradece Trump após declaração sobre Flávio

Eduardo Bolsonaro agradece Trump após declaração sobre Flávio
6

Fuga de Flávio mobilizou agentes americanos na Argentina, diz jornal

Fuga de Flávio mobilizou agentes americanos na Argentina, diz jornal
7

Em vídeo, Lula promete manter programas sociais e ignora ajuste fiscal

Em vídeo, Lula promete manter programas sociais e ignora ajuste fiscal
8

Flávio Bolsonaro vira alvo de ações por suspensão de salário

Flávio Bolsonaro vira alvo de ações por suspensão de salário
9

Bolívia decreta estado de emergência

Bolívia decreta estado de emergência
10

Avião cai em área residencial na Flórida e deixa nove mortos

Avião cai em área residencial na Flórida e deixa nove mortos
1

Gonet defende apreensão de celular de jornalista que citou Dino

Gonet defende apreensão de celular de jornalista que citou Dino
2

Flávio pede que Mendonça assuma caso relatado por Moraes

Flávio pede que Mendonça assuma caso relatado por Moraes
3

Vou indicar Rogério Marinho para Presidência do Senado, diz Flávio

Vou indicar Rogério Marinho para Presidência do Senado, diz Flávio
4

Ibovespa tem 5ª maior queda semanal desde o Plano Real

Ibovespa tem 5ª maior queda semanal desde o Plano Real
5

Presidente do STJ defende lisura das eleições brasileiras

Presidente do STJ defende lisura das eleições brasileiras
6

Jovem é esfaqueada no pescoço no RN; polícia apura motivação política

Jovem é esfaqueada no pescoço no RN; polícia apura motivação política
7

Flávio Bolsonaro diz que fuga “não é sinal de fraqueza”

Flávio Bolsonaro diz que fuga “não é sinal de fraqueza”
8

Roberto Ellery na Crusoé: A economia no quarto mandato de Lula

Roberto Ellery na Crusoé: A economia no quarto mandato de Lula
9

Lula já procurou o PSD, diz Kassab

Lula já procurou o PSD, diz Kassab
10

Roberto Reis na Crusoé: A revolta silenciosa

Roberto Reis na Crusoé: A revolta silenciosa
1

Crusoé: Petista quer impor teto ao valor cobrado por bancos por empréstimos

Crusoé: Petista quer impor teto ao valor cobrado por bancos por empréstimos
2

Binance retoma saques após roubo bilionário de criptomoedas

Binance retoma saques após roubo bilionário de criptomoedas
3

Lulistas boicotam, mas não querem ser boicotados

Lulistas boicotam, mas não querem ser boicotados
4

Dennys Xavier na Crusoé: Sócrates permaneceu. Flávio fugiu

Dennys Xavier na Crusoé: Sócrates permaneceu. Flávio fugiu
5

Fachin vê crise na Polônia como “alerta” para democracias

Fachin vê crise na Polônia como “alerta” para democracias
6

Lula retoma agenda internacional

Lula retoma agenda internacional
7

Sérgio Maurício terá de indenizar Erika Hilton

Sérgio Maurício terá de indenizar Erika Hilton
8

Novo diz ter ganhado filiados após contestar vitória de Lula

Novo diz ter ganhado filiados após contestar vitória de Lula
9

Justiça libera acesso a documentos sobre morte de Tancredo Neves

Justiça libera acesso a documentos sobre morte de Tancredo Neves
10

Policial suspeito de favorecer Renato Cariani será investigado

Policial suspeito de favorecer Renato Cariani será investigado

< Notícia Anterior

Oposição avalia denunciar Lula ao TSE por crime eleitoral após aumento do Bolsa Família

17.09.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Bernard Hinault: "A dor é temporária, desistir é definitivo."

17.09.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.