‘Ficção de cura’: saiba o que é (e como evitar)
Mercado livreiro se anima com o aumento de vendas de livros que não mereceriam ser lidos nem publicados
Eu não me canso de não me surpreender. Por deveres de ofício, tomo conhecimento de um novo fenômeno (pseudo) literário que tem mexido com os bolsos do mercado editorial brasileiro: a, assim chamada, “ficção de cura”.
Não, não estamos falando da autoajuda fajuta ou dos livros espirituais picaretas, que saudade deles, mas de narrativas “tranquilas e reconfortantes”, ambientadas em espaços confortáveis e protagonizadas por personagens introspectivos (imagino meia dúzia de atores com essa cara introspectiva) que lidam com desafios do cotidiano de maneira… sensível.
O termo – e a moda – “ficção de cura”, importado, como não poderia deixar de ser, de feiras estrangeiras, consiste em obras para quem busca uma vida melhor. De acordo com relato de um editor, cujo nome não menciono porque não merece ser mencionado, uma das características desses textos é “a ambientação em locais que evocam acolhimento, como livrarias, bibliotecas ou cafés”.
Sai o escritor, entra o decorador de interiores.
Especialistas correm para declarar especialidades. De acordo com um deles, a popularidade do gênero pode ser atribuída a, como sempre, “múltiplos fatores”, muitíssimo bem, mas o “contexto” pós-pandemia – a suspeita de sempre de todos os crimes – seria um dos mais importantes.
Dias atrás, escrevi na Crusoé sobre um outro “fenômeno” literário ou editorial. Não se trata de um gênio recém descoberto da poesia ou da prosa, mas de uma espécie de funcionário da sensibilidade alheia, o “sensitivity reader”, profissional que as editoras contratam para aferir o grau de dodói do leitor.
Se um livro tiver potencial de machucar a alminha do distinto público, o distinto público será avisado pelo “leitor sensível” – isso se as editoras não se anteciparem aos perigos que a leitura pode proporcionar e sanearem romances, poemas e ensaios, porque um editor prevenido vale por dois.
Antes analfabeto a ler “ficção de cura” ou socialmente adequada. Não aprendi a juntar letras e frases pra isso. Das primeiras representações nas cavernas ao último romance contemporâneo, de Homero à Bíblia, de Shakespeare a Nelson Rodrigues – nove décimos da literatura produzida desde que o mundo é mundo ferem, e devem mesmo ferir, suscetibilidades.
Se não ferissem, não seriam literatura – seriam livros do Paulo Coelho. Que, vejam só, pelo jeito está prestes a se transformar em um autor quase… perigoso.
Leia na Crusoé: Colorindo um futuro em preto e branco
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