Extrema esquerda: do terror francês ao terror dos nossos dias

17.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Extrema esquerda: do terror francês ao terror dos nossos dias

avatar
Catarina Rochamonte
10 minutos de leitura 15.07.2024 06:00 comentários
Análise

Extrema esquerda: do terror francês ao terror dos nossos dias

Essa mentalidade revolucionária e totalitária responde por inúmeros crimes contra a humanidade. Do grande terror francês aos Gulags soviéticos, o princípio de uma violência libertadora e emancipatória dirigiu as ações de líderes políticos e seduziu as mentes doutrinadas pela ideologia malsã

avatar
Catarina Rochamonte
10 minutos de leitura 15.07.2024 06:00 comentários 0
Extrema esquerda: do terror francês ao terror dos nossos dias
Reprodução

A revista Crusoé trouxe como capa da sua edição 323 o tema “Extremo engano”. A oportuna matéria, assinada por Duda Teixeira, apontou o “alarmismo seletivo” da cobertura das recentes eleições legislativas na França: “É imprescindível que qualquer pessoa possa soar o alarme ao identificar alguma ameaça à democracia […] o problema das últimas semanas é que as advertências foram feitas unicamente em relação a partidos políticos da direita, sem qualquer crítica para a esquerda”, escreveu o jornalista.

Embora eu tenha abordado esse tema nos meus últimos artigos, retorno a ele em outra perspectiva, a fim de esboçar um começo de explicação acerca dessa ameaça que vem da esquerda.

A dificuldade em perceber as ameaças reais à democracia começa pela falta de clareza acerca do quê exatamente está sob ameaça. Democracia não é um conceito unívoco. O termo comumente faz referência ao povo como conjunto de cidadãos aos quais cabe o direito de tomar decisões coletivas, mas o modo como se acredita que isso deva se dar remete a posições políticas ou a tradições políticas praticamente opostas.

Embora a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, tenha se inspirado na declaração de independência americana, de 1776, o artigo 6 da declaração francesa marca uma diferença importante ao afirmar que “A lei é a expressão da vontade geral.” No ensaio “Sobre a Revolução”, Hannah Arendt chama atenção para essa diferença. Sob o influxo das ideias de Jean-Jacques Rousseau, a lei fora identificada à vontade do povo, enquanto na constituição americana não há essa identificação.

O que isso tem a ver com a nossa discussão sobre esquerda, direita e democracia? É que a tradição política de esquerda está mais próxima da concepção rousseauniana de democracia e, de modo geral, mais vinculada ao pensamento político de Rousseau.

Rousseau e o ideário da esquerda revolucionária

A democracia, para Rousseau, é fundamentalmente plebiscitária. Para ele, a soberania está na Assembleia una e indivisa que institui a lei, que é a expressão direta da vontade geral. A vontade geral, por sua vez, é um conceito paradoxal, que não equivale à soma das vontades particulares coletivamente expressas, mas à soma das diferenças das vontades que se autodestroem. Essa ambiguidade teórica se reflete na recepção ambígua da sua obra, cuja influência é reivindicada tanto por projetos políticos libertários quanto por projetos políticos totalitários.

Além da noção de vontade geral e democracia plebiscitária, há outros aspectos da obra desse inspirador do ideário da Revolução Francesa que marcam a visão de mundo da esquerda. Para Rousseau, foi o estabelecimento da propriedade privada da terra que originou a injusta desigualdade entre os homens.

Desde o momento em que o primeiro homem cercou uma porção de terra e disse “isto é meu” deu-se uma espécie de clivagem entre a idílica idade de ouro na qual vivia o “bon sauvage” e a época civilizada, marcada pela diferença entre proprietários e não proprietários, ricos e pobres, exploradores e explorados.

A partir daí, a história prossegue como um processo de intensificação dessa injustiça. Quanto mais se tem, mais se sente necessidade de explorar. A ideia da exploração da força de trabalho, posteriormente teorizada por Karl Marx, já está, de certa forma, posta por Rousseau. Além disso, há a ideia de que todos os primeiros contratos sociais são injustos e refletem apenas pactos por meio dos quais se perpetua a diferença entre ricos e pobres.

O direito civil, que assegura o direito à propriedade privada, seria apenas a consolidação jurídica da desigualdade. Não haveria, portanto, diferença fundamental entre os tipos de governo: democracias, oligarquias, monarquias: todos seriam formas de manter e aprofundar as desigualdades até o momento em que a sociedade seria refundada por um novo contrato, legitimado pela vontade geral.

O que Rousseau parece mostrar – e que ainda hoje é aceito pela militância radical de esquerda – é que o desenvolvimento histórico da sociedade europeia vai no sentido do aprofundamento da injustiça, da corrupção e da servidão até que esse movimento seja interrompido à força, por uma revolução.

Vê-se que aqueles que hoje se autointitulam progressistas são, na verdade, aqueles que não creem no progresso natural e espontâneo da sociedade; creem, ao contrário, na necessidade da violência para engendrar o progresso.

Robespierre: virtude e terror

Uma importante figura histórica que reivindicou o legado de Rousseau, agindo politicamente inspirado por sua filosofia, foi Robespierre, o líder jacobino, visionário e fanático que fez do fervor revolucionário a sua religião.

Aliás, cá estamos no contexto de surgimento das concepções políticas de esquerda e direita, tão controversas nos dias atuais: durante a Revolução Francesa, os radicais jacobinos, que acabaram por decidir pela decapitação do rei Luís XVI, costumavam sentar-se à esquerda na Assembleia, enquanto os girondinos, que defenderam um Estado descentralizado, a monarquia constitucional e rejeitaram a execução de Luís XVI sentavam à direita.

Robespierre, líder jacobino, liderou um golpe de Estado, apoiado pelos sans-culottes, que desmantelou os girondinos, prendeu os seus dirigentes e formou o Comitê de Salvação Pública, insistindo que o poder supremo deveria emanar da Assembleia e que os ministros deveriam ser meros executores das suas decisões.

Como principal dirigente desse comitê, Robespierre discursou, em 1794: “Devemos sufocar os inimigos internos da República ou perecer com ela; a primeira máxima da sua política deve ser que lideremos o povo pela razão e os inimigos do povo pelo terror […]. Este terror nada mais é do que uma justiça rápida, severa e inflexível”.

Com base nisso, ele iniciou a etapa conhecida como Grande Terror, fase mais sangrenta da revolução, que condenou à morte milhares de pessoas, com a mera justificativa de que o executado era um “inimigo do bem comum.”

Robespierre, também conhecido como “o incorruptível”, defendeu a violência e a repressão como um mal necessário para alcançar uma república justa e pacífica. Com a violência, tentou impôr o seu ideal de uma república democrática e virtuosa. Também é dele a frase: “O terror, sem virtude, é desastroso. A virtude, sem terror, é impotente.

Violência e libertação

Essa mentalidade revolucionária e totalitária responde por inúmeros crimes contra a humanidade. Do grande terror francês aos Gulags soviéticos, o princípio de uma violência libertadora e emancipatória dirigiu as ações de líderes políticos e seduziu as mentes doutrinadas pela ideologia malsã.

Por mais que mentes mais lúcidas tenham rechaçado a violência política, muitos ainda a aceitam, sendo justamente esse o aspecto que caracteriza o extremismo, o qual foge às balizas civilizatórias que mantêm o conflito político no âmbito do dissenso saudável que reflete o pluralismo de ideias.

Há ainda uma corrente política, inspirada em dada corrente filosófica, que prega abertamente a violência revolucionária. A única diferença é que mudaram os que são considerados opressores (logo, precisam ser destruídos) e aqueles que são considerados oprimidos (logo, precisam ser justificados).

Os novos oprimidos

Como bem notou o filósofo Luc Ferry, no texto “Judéophopie, compreendre la nouvelle donne”, os muçulmanos são os novos proletários.

A guerra Israel-Hamas e a posterior ocupação das universidades ocidentais com idiotas úteis berrando pela aniquilação de Israel com um keffiyeh na cabeça, provam o ponto. Sinwar é o Che Guevara do século XXI.

Essa mudança de foco não começou agora. Em 1972, por exemplo, Jean-Paul Sartre escrevia no jornal La Cause du peuple: “Nesta guerra, a única arma dos palestinos é o terrorismo. É uma arma terrível, mas os oprimidos não têm outra; e os franceses que aprovaram o terrorismo da FLN contra o povo francês também devem aprovar a ação terrorista dos palestinos. Este povo abandonado, traído e exilado só pode mostrar a sua coragem e a força do seu ódio organizando ataques mortais”.

Não causa estranhamento, portanto – embora cause indignação – que um político extremista como Jean-Luc Melénchon, líder do partido La France Insoumise (LFI), tenha minimizado e justificado o cruel, bestial e indefensável ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro.

Jean-Luc Melénchon é um entusiasmado admirador de Robespierre e tem se esforçado para reabitá-lo e torná-lo modelo da nova França que ele quer fundar.

Como bem notou Duda Teixeira, na matéria da revista Crusoé anteriormente citada, o programa da sua campanha para presidente da França, em 2022, incluía a instalação de uma Sexta República: “Citando a Revolução Francesa de 1789, o programa pedia uma Assembleia Constituinte com uma estratégia revolucionária com vistas a uma ruptura profunda e que levaria a uma convulsão democrática.

A histeria em torno de uma ameaça da extrema-direita, supostamente representada no partido de Marine Le Pen (RN) foi responsável pelo êxito da aliança de esquerda Nouveau Front Populaire (NFP).

Embora o presidente francês, Emmanuel Macron, não esteja minimamente inclinado a cometer o disparate de nomear Melénchon como primeiro-ministro, a dissolução da Assembleia e o tal arco republicado armado contra o Rassemblement National (RN) tornou possível a eleição de 71 deputados da França Insubmissa (LFI), um partido radical, revolucionário e antissemita.

Onde está o extremismo?

Isso quer dizer que a direita radical ou populista não representa uma ameaça à democracia? Qualquer projeto político que destoe das conquistas basilares no que concerne aos direitos humanos e que planeje uma ruptura com a constituição do seu país é uma ameaça. Mas essa ameaça deve ser avaliada a partir de fatos reais e de posturas políticas concretas, sem “alarmismo seletivo”.

No momento em que eu ainda trabalhava nesse artigo, o ex-presidente dos Estados Unidos e atual pré-candidato, Donald Trump, foi vítima de um atentado. No que concerne às minhas convicções políticas, considero Trump, Marine Le Pen, Bolsonaro e outros desse tipo como representantes de um projeto nacional-populista que rejeito. Mas a apresentação política desse projeto é legítima e essas ideias devem ser combatidas com ideias melhores, cuja aceitação ou não se refletirá nas urnas.

O combate ao nacional-populismo de direita passa pelo combate ao negacionismo de quem teima em não ver extremismo na esquerda radical que presta culto à violência.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Flávio diz que foto com Sicário foi manipulada

Flávio diz que foto com Sicário foi manipulada
2

Influenciador vira réu por discurso contra pessoas pobres

Influenciador vira réu por discurso contra pessoas pobres
3

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece
4

Ex-aliado cobra “exame toxicológico” de Flávio Bolsonaro

Ex-aliado cobra “exame toxicológico” de Flávio Bolsonaro
5

Fachin diz que Supremo não admite influência ou pressão externa

Fachin diz que Supremo não admite influência ou pressão externa
6

“O governo brasileiro não vacilará” na defesa da soberania, diz Lula

“O governo brasileiro não vacilará” na defesa da soberania, diz Lula
7

Trump acusa China de interferir na eleição de 2020

Trump acusa China de interferir na eleição de 2020
8

Messias enfim comenta o episódio do “Bessias” 

Messias enfim comenta o episódio do “Bessias” 
9

Prefeito baiano ameaça demitir servidores que não apoiarem Jerônimo

Prefeito baiano ameaça demitir servidores que não apoiarem Jerônimo
10

Colômbia anuncia retomada de relações com Israel

Colômbia anuncia retomada de relações com Israel
1

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece
2

Fachin diz que Supremo não admite influência ou pressão externa

Fachin diz que Supremo não admite influência ou pressão externa
3

"O governo brasileiro não vacilará" na defesa da soberania, diz Lula

"O governo brasileiro não vacilará" na defesa da soberania, diz Lula
4

Governo Trump confirma tarifa de 25% e Brasil anuncia reciprocidade comercial

Governo Trump confirma tarifa de 25% e Brasil anuncia reciprocidade comercial
5

“Eu não virei feministo”, diz Flávio ao lançar plano Brasil por Elas

“Eu não virei feministo”, diz Flávio ao lançar plano Brasil por Elas
6

Tarifaço de Trump entra na mira da Câmara

Tarifaço de Trump entra na mira da Câmara
7

Motta reage a tarifaço: “Não há justificativa técnica”

Motta reage a tarifaço: “Não há justificativa técnica”
8

Moraes assume comando interino do STF

Moraes assume comando interino do STF
9

Brasil na liderança das Américas (em crime organizado)

Brasil na liderança das Américas (em crime organizado)
10

"Já tinha visto essa foto há mais de um mês", diz Valdemar

"Já tinha visto essa foto há mais de um mês", diz Valdemar
1

Meio-Dia em Brasília: Tarifaço de Trump: filho feio não tem pai, nem pensão

Meio-Dia em Brasília: Tarifaço de Trump: filho feio não tem pai, nem pensão
2

Antes da carta, Flávio foi única visita a Bolsonaro autorizada por Moraes na semana

Antes da carta, Flávio foi única visita a Bolsonaro autorizada por Moraes na semana
3

4 orações para o Dia de Santa Marcelina

4 orações para o Dia de Santa Marcelina
4

Crusoé: Economia do Ozempic – como as canetas emagrecedoras redesenham o consumo

Crusoé: Economia do Ozempic – como as canetas emagrecedoras redesenham o consumo
5

Moraes marca para 28 de julho depoimento de Flávio em inquérito sobre Lula

Moraes marca para 28 de julho depoimento de Flávio em inquérito sobre Lula
6

O tarifaço vai pegar Lula na esquina?

O tarifaço vai pegar Lula na esquina?
7

Crusoé: Senna Tower atinge R$ 2,4 bilhões em vendas em SC

Crusoé: Senna Tower atinge R$ 2,4 bilhões em vendas em SC
8

Moraes assume comando interino do STF

Moraes assume comando interino do STF
9

Motta reage a tarifaço: “Não há justificativa técnica”

Motta reage a tarifaço: “Não há justificativa técnica”
10

Reforma tributária entra na fase decisiva e testa poder de adaptação das PMEs

Reforma tributária entra na fase decisiva e testa poder de adaptação das PMEs

Tags relacionadas

esquerda extremismos Revolução Francesa Terrorismo violência
< Notícia Anterior

Roteiro Antagonista: Começa o recesso no Legislativo

15.07.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Oposição quer CPI da Secom no retorno do recesso

15.07.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.