Eloá e a crônica de uma morte televisionada

09.10.2026

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O Antagonista
Eloá e a crônica de uma morte televisionada
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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 21.11.2025 13:51 comentários
Análise

Eloá e a crônica de uma morte televisionada

Documentário da Netflix conta a história do crime que chocou o país e colocou em dúvida a credibilidade da imprensa, da polícia e dos políticos

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 21.11.2025 13:51 comentários 2
Eloá e a crônica de uma morte televisionada
Eloá Pimentel aparece na janela de sua casa, onde foi mantida em cativeiro por Lindemberg Alves

Ninguém desligava a tevê. De tempos em tempos, minha mãe aparecia na sala, estacava diante do aparelho, esperava alguns minutos, resmungava qualquer objeção, para logo sair dizendo: “Nada. Acho que ele não vai soltar a Eloá”. A tevê continuaria ligada. Na minha casa, em todas as casas. Na casa da família Pimentel, de onde Lindemberg assistia ao mesmo que nós e recalculava suas estratégias.

O documentário Caso Eloá: Refém ao Vivo, dirigido por Cris Ghattas, recapitula um dos incidentes mais escandalosos da história da imprensa brasileira. Retifico: da imprensa, da polícia, do Estado, dos vizinhos, dos famosos, dos anônimos, dos brasileiros que, sem perceber, foram transformados em espectadores – e cúmplices – de um desfecho trágico.

No dia 13 de outubro de 2008, Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento onde Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, sua ex-namorada, fazia um trabalho escolar com outros três amigos, Nayara Rodrigues da Silva, Iago Vilera e Victor Campos. Poucas horas depois, os rapazes seriam soltos. Nayara e Eloá seriam mantidas reféns.

As negociações avançam. Nayara é libertada. Populares se aglomeram e disputam espaço com repórteres, que disputam espaço com policiais, que disputam espaço com bandidos locais, que disputam espaço com políticos, que disputam espaço com helicópteros, que disputam espaço com o “anjinho” e com o “diabinho” que disputavam espaço na cabeça de Lindemberg.

A pedido da polícia, Nayara volta ao cativeiro. A multidão vibra. José Serra, governador de São Paulo, não autoriza o tiro que abateria o agressor. Traficantes reclamam da movimentação, que atrapalha os negócios. Lindemberg já não conversa com a polícia, porque conversa com a apresentadora Sônia Abrão. Uma vizinha justifica: “É o amor, né. Isso aí só quem sente pode falar”. Um advogado prevê: “Espero que termine em pizza e num futuro casamento entre ele e a apaixonada dele”.

De maneira sóbria e sem apelo ao melodrama, o filme intercala depoimentos dos pais e irmãos de Eloá, dos agentes envolvidos, dos jornalistas que cobriram o caso e da leitura de trechos do diário que a menina mantinha, única concessão da diretora a um recurso que poderia soar apelativo. Mas não soa.

As imagens de arquivo denunciam, sem que fosse preciso muito esforço na ilha de edição, a obscenidade do espetáculo e dimensão dos erros de quase todos os envolvidos. O bandido é romantizado, feito herói, anti-herói, bom moço, trabalhador, cumpridor de deveres, apaixonado, ator, roteirista, diretor e produtor de um reality show macabro que produziu para si mesmo.

Mais de cem horas depois, policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e da Tropa de Choque da Polícia Militar explodem a porta do apartamento, entram em luta corporal com Lindemberg, que por sua vez atira em direção às reféns. Nayara é ferida no rosto, mas sobrevive. Eloá é alvejada na cabeça. Levada inconsciente a um hospital de Santo André, morreria horas depois.

Muito se pode dizer, e seria dito, sobre o caso. Estudiosos, jornalistas, autoridades e políticos se revezariam nas explicações, nas justificativas, nas interpretações. Mas, agravantes à parte, o fato é que Lindemberg foi bastante claro sobre suas intenções, desde o início. Já no primeiro dia, disse ao sargento Atos Antônio Valeriano, que escapou de um tiro enquanto negociava: “Eu atirei para provar que eu não sou bonzinho. Vocês estão enganados comigo”.

Em fevereiro de 2012, Lindemberg provou não ser bonzinho e foi condenado a 98 anos e 10 meses de prisão pela juíza Milena Dias. A sentença, como não poderia deixar de ser, foi transmitida ao vivo por grandes redes de televisão, que capitalizaram mais um pouco com a audiência. Em 6 de junho de 2013, o Tribunal de Justiça de São Paulo reduziu a pena para 39 anos e três meses, que Lindemberg agora cumpre, em regime semiaberto, no “presídio dos famosos” de Tremembé. O crime às vezes compensa.

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Gustavo Nogy

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Comentários (2)

Luiz Filho

22.11.2025 22:54

José Serra tão covarde quanto anthony garotinho, omissos no trato com criminosos. Covardes e corruptos


ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO

22.11.2025 11:24

Porque não se autorizar o abate do bandido numa hora dessas? A vida dele não pode ter o mesmo valor do que a vida daqueles que ele ameaça.


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