O efeito borboleta do El Niño
A lição que fica deste El Niño é clara: a transição de um choque climático para um choque inflacionário está cada vez mais direta e veloz
Por Guto Gioielli*
O mercado global assiste a uma demonstração prática de como a emergência climática transborda os termômetros e desorganiza as cadeias de suprimento.
O El Niño atual desponta como um dos mais severos, impondo custos econômicos trilionários e redesenhando arbitragens financeiras, agrícolas e logísticas.
No Canal do Panamá, que é artéria central do comércio interoceânico, a falta de chuvas forçou o corte de trânsito de navios e disparou os custos de passagem.
O valor para eclusagem saltou de 800 mil dólares para impressionantes 2,5 milhões de dólares. Mais um ponto de estrangulamento a se somar aos gargalos do Oriente Médio.
Inflação
Enquanto isso, no setor extrativo, tempestades atípicas nos Andes chilenos paralisaram minas de cobre.
Em um cenário no qual a eletrificação e a infraestrutura para data centers exigem ofertas crescentes do metal, qualquer fratura na produção física injeta viés altista imediato nas cotações internacionais.
Do lado das commodities agrícolas, a escassez de anchovas no Peru fez disparar o preço da farinha de peixe, impulsionando a busca por proteínas alternativas.
Na Ásia, a fraqueza das monções pressiona as safras de arroz e força medidas protecionistas, enquanto cacau e açúcar acumulam prêmios de risco.
A lição que fica deste El Niño é clara: a transição de um choque climático para um choque inflacionário está cada vez mais direta e veloz.
Geopolítica do clima
O mercado financeiro e a economia real não podem mais tratar eventos meteorológicos extremos como variáveis imprevisíveis ou bissextas, mas como um risco estrutural e precificável nas planilhas de frete, energia e alimentação.
Para o Brasil que combina a condição de celeiro agrícola global com uma matriz logística ainda exposta, a geopolítica do clima traz um vetor ambíguo.
Se a quebra de safra e o desbalanceamento de concorrentes asiáticos e africanos podem valorizar grãos, açúcar e carnes brasileiras, os riscos de seca e gargalos infraestruturais em território nacional exigem gestão de risco impecável.
A complacência do mercado com a volatilidade climática acabou.
No xadrez macroeconômico global, quem se antecipar na gestão hídrica, na eficiência logística e na biotecnologia garantirá os maiores prêmios de arbitragem.
*Guto Gioielli é analista de investimentos (CNPI) e fundador do Portal das Commodities.
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