Dugin elogia Trump que elogia Putin que não elogia ninguém
Ideias pouco importam; o que importa mesmo são os arranjos e as situações entre aqueles que defendem as ideias
Enquanto o visionário míope Elon Musk confessa estar decepcionado com “o projeto de gastos massivo” de Donald Trump, o guru de Vladimir Putin e ideólogo da antidemocracia, Alexander Dugin, defende o apoio ao presidente americano, e garante que “a Rússia é a única amiga real de Trump e dos Estados Unidos”.
Vivi para ver as ideias liberais se transformarem em votos para estatistas, e os valores conservadores se converterem em rapapés para autoritários. Não posso dizer que estou decepcionado. Só se decepciona quem espera mais. Eu esperava menos.
Há muito deixei de acreditar em ideias, narrativas ou discursos explícitos, e comecei a prestar atenção em dinâmicas, alianças e arranjos sociais implícitos. O conteúdo não importa. O que importa é a disposição de torres, peões, cavalos, bispos, damas e reis no tabuleiro ideológico, a depender do contexto histórico ou da proximidade das urnas. Como Frédéric Bastiat nos ensinou, é a diferença entre o que se vê e o que não se vê.
Liberais defendem menos Estado, mas podem se empoleirar no Estado se assim lhes convier.
Conservadores estão sempre preocupados com a moralidade alheia, mas cometem indiscrições de Casanova e fingem não ver as indiscrições de seus aliados de agora ou cúmplices de sempre.
Capitalistas gostam do livre mercado, salvo quando gostam de protecionismo.
Garantistas se escandalizam com minúcias processuais, contanto que tais minúcias de tais processos não se voltem contra aqueles cujos direitos eles querem ver garantidos.
Libertários até defendem a radicalidade de suas propostas, ainda que precisem da ajuda de um burocrata para fazê-las acontecer.
Tradicionalistas se submetem ao papa, a não ser que o papa não se submeta a eles.
Pastores falam em línguas, em todas as línguas, menos as línguas compreensíveis e compreendidas pelos fiéis que precisam de apoio.
Progressistas são a favor da democracia, muito embora discordem do resultado de todas as eleições que não elejam seus candidatos.
Políticos insistem em regulamentar a expressão para nos proporcionar mais liberdade de expressão.
Abolicionistas penais e entusiastas da antipsiquiatria detestam prisões e hospitais, que, como se sabe, devem servir apenas para encarcerar e internar os fascistas – todos os que eles considerem fascistas.
Professores de história se esmeram em contabilizar cada microagressão praticada nas redes sociais e no happy hour da firma, e refazem as contas para desconsiderar cada superagressão praticada por Hitler na Alemanha ou Stalin na União Soviética.
A arte é longa, a vida é breve. Mas acho que deu pra entender.
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Comentários (1)
Jorge Irineu Hosang
28.05.2025 19:58Todos são hipócritas, disfarçados de bons moços, fingem querer preservar valores, mas são tutelados pelo que chamamos de pecados capitais. Nunca, na história recente da humanidade, digo, nos últimos 75 anos, fomos tão medíocres, egoístas, mesquinhos e tacanhos, enquanto seres que se dizem pensantes, mas que na verdade, só enxergam o próprio umbigo. A humanidade regrediu a tal ponto que, neste momento reconheço que inevitavelmente será tutelada por uma IA. IA que certamente, ao reunir e alimentar-se do conhecimento e valores registrados pelos que nos antecederam irá considerar os viventes como sendo bestas dispensáveis.